O Sporting deslocou-se este domingo ao terreno do Alverca, a poucos quilómetros de Lisboa, para mais uma vitória tranquila e merecida perante os ribatejanos por 4-1. Ainda assim, não foi apenas uma vitória, mas antes uma declaração.
No regresso à competição caseira depois da heroicidade europeia que colocou o futebol português no mapa naquela terça-feira, o Sporting podia ter caído na armadilha da quebra de concentração, mas não caiu. Ao invés, em Alverca, frente a uma equipa que há meses não perdia no seu reduto, os leões impuseram o seu melhor futebol com uma vitória por 1-4, numa tarde que ficou marcada tanto pela excelência futebolística como por um momento invulgar de fair-play que expôs, de forma crua, as fragilidades da arbitragem portuguesa.











O regresso amargo de Nuno Santos e a frieza de Pote
Rui Borges, na gestão do onze após o desgaste da Champions, optou por uma única alteração forçada no lote dos titulares: a entrada de Nuno Santos para o lugar do castigado Maxi Araújo. Era a primeira titularidade do extremo esquerdo 512 dias depois da última aparição no onze inicial, um regresso que prometia ser uma história de superação. Contudo, o futebol, tantas vezes cruel, escreveu um guião diferente. Aos 26 minutos, após um lance dividido, Nuno Santos caiu no relvado, agarrou no músculo e acabou por sair em lágrimas das quatro linhas, dando lugar a Vagiannidis. A imagem do jogador a chorar no banco foi o retrato de um regresso que se transformou em novo calvário.
Até esse momento, o jogo seguia num ritmo controlado pelos visitantes. O Alverca, bem organizado no seu 3x4x3, procurava segurar o ímpeto leonino, mas a sua disciplina defensiva foi quebrada por um erro individual com selo de classe. Aos 22 minutos, Lincoln tentou afastar o perigo dentro da área, mas serviu involuntariamente Pedro Gonçalves. Sem hesitar, o camisola 8 soltou um remate colocado e sublime junto ao poste, abrindo o marcador com a frieza que caracteriza os melhores.











O erro, a honestidade e o golo de carácter
A segunda metade do encontro começou com o episódio que certamente dominará as conversas nos próximos dias, pelo menos entre os adeptos leoninos. Aos 48 minutos, João Pinheiro assinalou uma grande penalidade a favor do Sporting após um contacto entre o guarda-redes André Gomes e avançado do Sporting Luis Suárez. O lance era duvidoso, mas o que se seguiu foi raro.
O avançado colombiano, autor de 24 golos na liga e o principal candidato à Bola de Prata, dirigiu-se de imediato ao árbitro para dizer que não existia falta. Quase de imediato, o VAR chamou João Pinheiro ao monitor e a decisão foi revertida. Só que, na explicação para a reversão da sua decisão, o árbitro da partida disse que “após revisão do lance, o jogador número 92 simulou a queda, pelo que não é penálti”. Claro que a indicação de queda simulada obrigada a exibição de cartão amarelo e Luis Suárez viu aquela cartolina por suposta simulação… que não fez!











O erro aqui é duplo e de rara gravidade. Num primeiro momento, o árbitro assinala uma penalidade inexistente. Num segundo momento, após ser informado pelo jogador da verdade dos factos, o juiz mantém o castigo disciplinar sobre o atleta, punindo-o por uma infração que o próprio visado negou ter acontecido . A imagem de Suárez a dizer “não foi penálti” ao juiz, e este a mostrar-lhe o cartão amarelo, ficará como um dos momentos mais paradoxais da temporada. A tecnologia serviu para corrigir a decisão principal, mas falhou redondamente na aplicação da justiça secundária.
Contudo, se a arbitragem falhou, o futebol encarregou-se de aplicar a sua própria justiça poética. Revoltado com o cartão, Luis Suárez recebeu a bola dois minutos depois, aos 50, e resolveu responder da única forma que os grandes jogadores sabem: com um golo. De fora da área, sem deixar cair, desferiu um remate inapelável para o fundo das redes. Curiosamente, o colombiano nem sequer celebrou. Limitou-se a olhar para João Pinheiro, num gesto que dizia mais do que mil palavras. Foi o momento alto de uma exibição de homem do jogo, ainda que este título acabasse por cair num outro pote.












Geny e o bis que fecharam a conta
Com o 0-2 no marcador, o Sporting sentiu-se mais confortável para gerir os tempos. O Alverca, ainda assim, tentava responder, mas esbarrava na solidez de Rui Silva e na falta de pontaria. Até que, aos 68 minutos, Geny Catamo resolveu decidir o jogo com um momento de pura magia. O moçambicano, descaído pela direita, isolou-se, entrou na área e, com o pé esquerdo, atirou de forma colocada e implacável para o 0-3. Um golaço que mereceu o reconhecimento do estádio.
O Alverca ainda reduziu por Marezi aos 83 minutos, num lance de insistência que premiou a fé dos ribatejanos, mas a noite pertencia a Pedro Gonçalves. Nos instantes finais, já dentro dos descontos, Pote recebeu um livre direto na entrada da área e, com a classe que o distingue, colocou a bola no canto da baliza de André Gomes, bisando e fechando o marcador em 1-4. Foi o segundo golo da noite para o homem que, com a sua visão e capacidade de finalização, foi justamente considerado, ele sim, o melhor em campo.








A vitória no relvado ribatejano recoloca o Sporting no segundo lugar, igualado com o Benfica e a quatro pontos do FC Porto, mantendo viva a chama do sonho do tricampeonato. Mais do que os três pontos, ficou a imagem de uma equipa madura, que soube gerir a euforia europeia, e de um jogador, Luis Suárez, que transformou um momento de injustiça num exemplo de carácter e num golo de resposta. No futebol, nem sempre a lei é justa. Mas, neste domingo em Alverca, a ética desportiva falou mais alto do que o critério do árbitro.









