Ferencvaros-Braga-01

SC Braga caiu na toca do lobo húngaro e perdeu em Budapeste

Havia um sonho europeu a crescer em Braga, alimentado por uma fase de liga brilhante que valeu o apuramento direto para os oitavos de final. Mas a Liga Europa, essa velha senhora das noites continentais, reservava uma armadilha disfarçada de estádio moderno na capital húngara. E o SC Braga caiu de olhos abertos na toca do lobo. O Ferencváros, orientado pelo irlandês Robbie Keane, venceu por 2-0 em Budapeste e deixou os arsenalistas à beira de um abismo na competição.

O que se passou na Groupama Arena foi mais do que uma derrota. Foi um alerta sonoro para os defeitos de fabrico que Carlos Vicens ainda não conseguiu corrigir. A eliminatória está em aberto, como gostam de dizer treinadores e jogadores, mas a verdade é que a missão na segunda mão, a disputar quarta-feira no Minho, ganhou contornos de épico.

Vicens surpreendeu na convocatória, lançando um onze que misturava juventude e experiência, mas que pecava pela desconexão entre setores. O técnico espanhol apostou num sistema de três centrais – Lagerbielke, Niakaté e Arrey-Mbi – com Dorgeles e Leonardo Lelo nas faixas laterais, numa tentativa de dar largura à equipa. No miolo, o veterano João Moutinho fez dupla com Grillitsch, enquanto Zalazar flutuava atrás de Pau Víctor e Ricardo Horta.

A teoria era bonita. A prática, porém, desfez-se nos primeiros minutos de pressão alucinante dos magiares.

A noite em que Hornicek tremeu

O SC Braga entrou a medo. E contra equipas agressivas, com adeptos a soprar foguetes nas imediações do relvado, entrar a medo é meio caminho andado para o desastre. O primeiro aviso chegou aos 19 minutos, quando Mariano Gómez cabeceou ao lado após um livre. A resposta bracarense surgiu pelos pés de Zalazar, esse uruguaio de ar farpado que trata a bola por tu, mas que neste jogo esteve longe da inspiração que lhe conhecemos.

Aos 27 minutos, João Moutinho, num rasgo de classe sem idade, isolou Dorgeles. O jovens marfinense apareceu na cara do guarda-redes Gróf, mas rematou fraco, como quem pede desculpa pela ousadia. Era o aviso que não merecia castigo, mas o futebol é cruel com quem perdoa.

Aos 32 minutos, a punição chegou pelas mãos – ou melhor, pelos pés – de Hornicek. O guarda-redes checo, tão seguro nas últimas exibições, resolveu bater uma bola de forma displicente, oferecendo-a a Raemaekers. O defesa do Ferencváros teve tempo para endossar a Joseph, e este para isolar Kanichowsky, que não perdoou. 1-0 e um nó na garganta dos 250 adeptos bracarenses que fizeram a viagem.

Ao intervalo, o resultado até sabia a pouco para os húngaros. Kanichowsky ainda obrigou Hornicek a defender um remate violento, e a sensação era de que o SC Braga tinha escapado a uma tareia maior.

Gabri entrou, Makreckis resolveu

A segunda parte trouxe um SC Braga ligeiramente melhor, isso é verdade. Vicens mexeu na equipa, lançou Gabriel Moscardo e, mais tarde, Gabri Martínez, o extremo espanhol que foi dos poucos a sair com créditos reforçados da noite húngara.

Gabri entrou com a fome de quem quer agarrar a oportunidade. Aos 66 minutos, foi para cima do adversário como quem enfrenta um touro, ganhou um canto e incendiou a direita do ataque bracarense. Aos 88, fez uma arrancada fenomenal e serviu Fran Navarro na área, mas o espanhol parecia não estar à espera da bola e desperdiçou.

Mas enquanto o SC Braga tentava, o Ferencváros ia matando o jogo no contra-ataque. Aos 69 minutos, Makreckis fez uma arrancada pela direita, deixou Leonardo Lelo pregado ao relvado e cruzou para Joseph fazer o 2-0. O segundo golo expôs, em toda a sua nudez, as fragilidades defensivas dos minhotos: Arrey-Mbi foi pressionar ao meio-campo e deixou um buraco nas costas, Lelo não teve pernas para acompanhar o lateral, e a bola acabou na baliza.

Zalazar apagado, Moutinho solitário, Horta ausente

Para dar conta da forma como jogou o SC Braga importa olhar para as individualidades, porque é nelas que os guerreiros do Minho costumam encontrar a diferença. Neste jogo, porém, não o conseguiu.

Zalazar foi uma sombra do jogador que tem sido. Teve nos pés a primeira oportunidade aos seis minutos, mas o remate esbarrou num defesa. No final da primeira parte, fez um bonito remate de fora de área que Gróf defendeu. Já João Moutinho fez o que sabe: tentou pautar o jogo, deu um passe fenomenal para isolar Dorgeles, mas sentiu-se só no miolo, deixando claro que faltou alguém ao seu lado para equilibrar as forças com a formação húngara.

Por fim, Ricardo Horta foi talvez a maior desilusão. O capitão, tão decisivo em tantas noites europeias, andou apagado, quase invisível, sem confiança para os seus rasgos individuais, acabando a turma bracarense por sentir a sua ausência. Valeu ao SC Braga o extremo espanhol Gabri Martínez, ele que deixou claro o merecimento de mais minutos. Criou desequilíbrios, ganhou cantos, fez uma assistência que Fran Navarro desperdiçou e deixou o recado a Vicens para que conte com ele na Pedreira na próxima semana.

A montanha que falta subir

O SC Braga regressa assim a Portugal com um problema complicado para resolver. Dois golos de desvantagem não são uma sentença de morte, mas contra uma equipa fisicamente forte, bem orientada e que vai jogar fechada na Pedreira, a tarefa ganha contornos hercúleos.

O conjunto arsenalista tem gente de sobra para criar, mas deixa buracos atrás que equipas competentes como o Ferencváros aproveitam sem piedade, motivo pelo qual já na próxima quarta-feira, na Pedreira, será preciso que entre em campo um SC Braga diferente, capaz de corrigir os erros que a primeira mão escancarou. Será preciso, sobretudo, acreditar que é possível, e rezar para que o lobo húngaro não volte a uivar mais alto.

texto: Inês Aires
fotos: © X (Twitter)

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