Guerra na Ucrânia

Invasão da Ucrânia começou há quatro anos com uma guerra que reconfigurou a Europa

Faz esta terça-feira, 24 de fevereiro, quatro anos desde que o mundo acordou com o som das sirenes e a promessa de Vladimir Putin de uma “operação militar especial” relâmpago. O objetivo declarado do Kremlin era “desnazificar” e “desmilitarizar” um vizinho rebelde, tomando Kiev em poucos dias. Em vez disso, o que se seguiu foi o maior conflito armado em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial, uma provação de quatro anos que transformou a Ucrânia num símbolo de resistência, mergulhou a Rússia num isolamento sem precedentes e reescreveu as regras da geopolítica global.

Para compreender a invasão de 2022 é preciso recuar a 2014. Na sequência da Revolução da Dignidade na Ucrânia, que afastou o presidente pró-russo Viktor Yanukovych, a Rússia apressou-se a anexar a Crimeia e a fomentar um movimento separatista na região do Donbass, no leste do país. Durante oito anos, o conflito permaneceu congelado, mas o tabuleiro geopolítico nunca deixou de mexer-se. Putin via a aproximação da Ucrânia à NATO e à União Europeia como uma ameaça direta à sua esfera de influência, uma linha vermelha que justificaria, aos seus olhos, a ação militar.

A 24 de fevereiro de 2022, essa ação concretizou-se. As colunas russas avançaram por várias frentes, vindas da Rússia, da Bielorrússia e da Crimeia. A comunidade internacional prendeu a respiração, esperando a rápida queda da capital. Mas a resistência ucraniana, liderada por um improvável líder wartime, o antigo ator cómico Volodymyr Zelensky, frustrou os planos do Kremlin. As tropas russas foram forçadas a retirar-se dos arredores de Kiev, revelando ao mundo as atrocidades de Bucha e Irpin, provas de uma violência que a ONU e organizações de direitos humanos classificam desde então como potenciais crimes de guerra.

O conflito tornou-se então uma guerra de trincheiras e desgaste, centrada no leste e sul da Ucrânia. Batalhas épicas como as de Bakhmut e Avdiivka ceifaram centenas de milhares de vidas. Em quatro anos, o balanço é devastador. Segundo a ONU, mais de 15 mil civis foram mortos e 40 mil feridos, números que a própria organização admite estarem aquém da realidade. Milhões de pessoas fugiram do país, criando a maior crise de refugiados na Europa desde a II Guerra Mundial, e a economia ucraniana foi dizimada, com uma queda de 30% do PIB em 2022.

A Europa e o Mundo numa encruzilhada

As consequências para a realidade europeia foram profundas e transformadoras. A guerra obrigou a UE a repensar as suas dependências energéticas, pagando o preço de anos de dependência do gás russo com uma inflação galopante e uma crise do custo de vida. Ao mesmo tempo, o conflito galvanizou a NATO, que, ao contrário do desejo de Putin, se expandiu com a adesão da Finlândia e da Suécia.

Para a Rússia, o projeto de poder global de Putin sofreu um golpe severo. A expectativa de uma vitória rápida deu lugar a um estatuto de “pária internacional”. Com a economia sob pressão de sanções sem precedentes e uma crescente dependência da China, Moscovo viu a sua influência diminuir. A relutância ou incapacidade de proteger aliados históricos, como Bashar al-Assad na Síria, expôs as limitações do seu poder militar para além da Ucrânia.

Para o povo ucraniano, o preço é incalculável. Para além das baixas e da destruição de cidades inteiras, 2025 foi classificado como o ano mais letal para os civis desde o início da guerra, com uma escalada de ataques com mísseis e drones contra infraestruturas energéticas e zonas residenciais. O inverno transformou-se numa arma, com apagões generalizados a mergulharem a população na escuridão e no frio. Os relatos de tortura e execuções de prisioneiros de guerra por parte das forças russas pintam um quadro de sofrimento sistemático e violações do direito internacional.

O Quinto Ano: entre a tecnologia e a incerteza

Ao entrar no quinto ano, o conflito parece longe do fim. O regresso de Donald Trump à Casa Branca trouxe uma nova variável de imprevisibilidade. Apesar da retórica de paz imediata, as negociações arrastam-se, e os combates intensificaram-se. A guerra entrou numa fase de alta intensidade tecnológica. A Ucrânia desenvolveu mísseis de cruzeiro de longo alcance, como o “Flamingo”, capazes de atingir alvos a 3.000 km, enquanto a Rússia responde com mísseis hipersónicos como o “Oreshnik” e uma produção massiva de drones, numa corrida para automatizar e industrializar a morte.

Para 2026, os analistas preveem uma continuação do desgaste. A Rússia deverá manter a pressão no leste, tentando conquistar mais território, enquanto a Ucrânia, com o apoio europeu, tentará estabilizar a frente e aprofundar os seus ataques em território inimigo. A perspetiva de um acordo de paz satisfatório para ambas as partes parece uma miragem, com o Kremlin a manter ambições maximalistas e Kiev a recusar ceder território.

A Geopolítica em frangalhos

Olhando para trás, é claro que a invasão da Ucrânia não alterou apenas as fronteiras, mas sim toda a arquitetura de segurança global. O mundo unipolar do pós-Guerra Fria evaporou definitivamente, dando lugar a uma ordem multipolar volátil, onde potências como a China observam o desgaste mútuo. A guerra realinhou alianças, expôs a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento globais e trouxe o risco nuclear de volta ao discurso corrente, com a central de Zaporizhzhia a pairar como uma ameaça constante.

Quatro anos depois, a Rússia pode controlar cerca de 20% do território ucraniano, mas perdeu a confiança dos seus vizinhos e a ilusão de um mundo onde a sua palavra era lei. A Ucrânia, mutilada e exausta, conquistou o respeito do mundo, mas anseia por paz. A Europa, desperta do seu “sonho de fim de história”, rearma-se e debate-se com o regresso da guerra ao seu solo. O dia 24 de fevereiro de 2022 é uma daquelas datas que divide a História em duas partes: o antes e o depois. E o depois, ao que tudo indica, será longo, doloroso… e promete continuar.

Jorge Reis / LusoNotícias

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