Chamem-lhe azar, chamem-lhe surpresa, chamem-lhe o milagre ribatejano, mas na noite chuvosa desta segunda-feira em Rio Maior, a única coisa que não se pode contestar é o facto: o até aqui tranquilo e invicto caminho do FC Porto para o título foi interrompido pelo mais inesperado dos obstáculos. O Casa Pia, equipa que à vigésima jorna não somava qualquer vitória em casa estando por isso mergulhada na luta pela sobrevivência, não só encontrou o seu primeiro triunfo na casa emprestada de Rio Maior como o celebrou da maneira mais estonteante: quebrando a invencibilidade do líder e derrotando pela primeira vez na sua história o gigante FC Porto por 2-1.
O líder do campeonato chegou a Rio Maior envolto numa aura de fortaleza inexpugnável. Vinha da melhor primeira volta da história do campeonato, renovara com o seu técnico, Francesco Farioli, e ostentava a melhor defesa da prova, com apenas quatro golos sofridos. A missão dos “gansos” agora orientados pelo carismático Álvaro Pacheco era, no papel, uma simples formalidade. Mas o treinador casapiano, na véspera, lançara a semente da revolta: “Temos a oportunidade de conseguir a primeira vitória em casa, contra o líder que ainda não perdeu… É algo que nos deixa mais motivados”. Palavras que, esta segunda-feira, se transformaram em profecia.

Golo de Larrazabal abriu um desfecho diferente
A estratégia foi uma lição de eficácia brutal. O FC Porto dominou, pressionou, criou, mas foi na primeira investida dos gansos que a rede balançou: aos 12 minutos, Gaizka Larrazabal apareceu no segundo poste para finalizar um cruzamento de Jérémy Livolant, fazendo o primeiro golo assinado, na assistência e na finalização, pelos dois melhores jogadores do Casa Pia nesta partida.
O choque instalou-se entre os azuis e brancos, os pupilos de Farioli reagiram e Gabri Veiga exigiu uma grande intervenção ao guardião Patrick Sequeira, que travou o que parecia um golo certo. E quando poucos o esperariam, a surpresa assumiu contornos de escândalo, isto porque já nos descontos da primeira parte, o central Thiago Silva, contratado neste mercado de Inverno pelo FC Porto, marcou um autogolo, desviando para a sua baliza um livre de Conté, selando uma contrariedade que parecia ficção: em 45 minutos, o líder sofrera tantos golos como nos dez jogos anteriores dora do Estádio do Dragão.
Apesar da surpresa do resultado ao intervalo, há que dar conta que a reação portista no arranque do segundo tempo foi ao encontro das expectativasm assumindo-se imediata e feroz. Pablo Rosario, chamado para o segundo tempo por Francesco Farioli, reduziu a diferença aos 46 minutos com um golo que, há que o dizer, foi precedido de uma falta do jogador que o marcou. Rosario, que não saltou à bola, empurrou o defesa contrária e ganhou a posse de bola, acabando por se virar e bater Patrick Sequeira, tirando partido do critério do árbitro que deixou sempre jogar sem assinalar os toques menos ostensivos.
William Gomes atingiu David Sousa e feriu o FC Porto


Reduzida a desvantagem, esperava-se que o FC Porto prosseguisse a sua ofensiva à baliza do Casa Pia, mas ali era o espaço dominado pelo guarda-redes Patrick Sequeira que, tal como uma muralha, travou remates de Veiga, Samu e Deniz Gül nos minutos seguintes. E quando os dragões queriam prosseguir esta luta por repor a igualdade e partir depois para a vitória, o seu querer esbarrou com uma asneira de William Gomes, acabado de entrar na partida. Ao minuto 78′, Gomes viu o cartão vermelho direto por uma entrada imprudente sobre David Sousa, jogador que teve de ser suturado em pleno relvado para prosseguir em campo. O FC Porto ficava a partir dali a jogar com apenas dez, contra um adversário que começava a acreditar na possibilidade de, finalmente, vencer em casa, e logo contra um dos ditos grandes.
O árbitro Pedro Ramalho deu onze minutos de compensação, perfeitamente justificados pelo tempo que o jogo esteve parado. O FC Porto insistiu e procurou todas as soluções, chegando mesmo o guarda-redes Diogo Costa a subir à área do Casa Pia para tentar a sua sorte, num lance em que a bola não chegou ao seu alcance. E quando se ouviu o derradeiro apito desta partida a celebração dos gansos em Rio Maior foi de alívio e êxtase histórico. O Casa Pia subiu do 16.º para o 15.º lugar da tabela classificativa da I Liga, empurrando o Santa Clara para os lugares de despromoção, e garantia um tónico ímpar que só uma vitória destas pode dar. Já para o FC Porto ficava exposta a primeira mancha na sua folha imaculada do campeonato.


Tudo em aberto na I Liga à beira do clássico
O desfecho, contudo, ressoa muito para lá da noite ribatejana. Este resultado é um terramoto com epicentro no Estádio do Dragão. A confortável liderança dos azuis e brancos encolheu de um só golpe: de uma vantagem que poderia ser confortável para sete pontos sobre o Sporting, passou para um frágil diferencial de quatro. O clássico da próxima jornada, que já seria sempre um duelo de titãs, transforma-se agora num encontro de consequências dramáticas. Um triunfo leonino no Dragão aproximaria o rival perigosamente, a um ponto, reabrindo por completo uma corrida ao título que muitos davam por decidida. A pressão, que parecia uma companheira distante, instalou-se subitamente no vestiário portista.
Em Rio Maior, o Casa Pia não ganhou apenas três pontos. Arrancou ao líder uma invencibilidade preciosa e, inadvertidamente, entregou ao Sporting um facho de esperança renovada. O campeonato, que parecia um monólogo, voltou a ser um thriller. E a música que soa nesta semana não é a de uma vitória isolada, mas o som de um alarme que toca, alto e claro, na Invicta.









