A ativista austríaca e cofundadora do Anne Frank Trust UK, que dedicou a vida à educação sobre o Holocausto, faleceu em Londres no passado sábado, dia 3 de janeiro. A notícia foi confirmada pela organização que ajudou a criar e pela sua família.
Eva Schloss, uma das últimas grandes vozes da memória do Holocausto, cuja vida ficou para sempre ligada à de Anne Frank, morreu pacificamente aos 96 anos. A sua morte foi anunciada no domingo pelo Anne Frank Trust UK, do qual era presidente honorária e cofundadora. A instituição descreveu-a como “uma mulher extraordinária: uma sobrevivente de Auschwitz, uma educadora dedicada ao Holocausto, incansável no seu trabalho pela memória, pela compreensão e pela paz”.
A notícia foi recebida com profunda tristeza em todo o mundo, tendo o Rei Carlos III do Reino Unido sido um dos primeiros a prestar homenagem. Num comunicado partilhado nas redes sociais, o monarca afirmou: “A minha mulher e eu ficámos profundamente entristecidos ao saber da morte de Eva Schloss. Os horrores que ela suportou quando jovem são impossíveis de compreender e, no entanto, ela dedicou o resto da sua vida a superar o ódio e o preconceito”.
Uma vida marcada pela perseguição e pela perda
Nascida Eva Geiringer em Viena, Áustria, a 11 de maio de 1929, a sua vida mudou para sempre em 1938, quando a sua família judia foi forçada a fugir dos nazis, refugiando-se em Amesterdão, nos Países Baixos. Aí, foram viver para o número 46 da Merwedeplein, ficando vizinhos da família Frank. Eva e Anne, que tinham quase a mesma idade, tornaram-se amigas de infância, partilhando brincadeiras de rua como o jogo da macaca e conversas na cozinha da casa dos Frank. “Ela preparava limonada… e nós sentávamo-nos a beber juntas na cozinha”, recordaria Eva, décadas mais tarde.
Com a ocupação nazi dos Países Baixos em 1940, o destino das duas famílias voltou a cruzar-se de forma trágica. Ambas foram forçadas a esconder-se no mesmo dia, 6 de julho de 1942. Durante quase dois anos, a família de Eva viveu separada em diferentes esconderijos, ajudada pela resistência holandesa. O pesadelo terminou a 11 de maio de 1944, no 15.º aniversário de Eva, quando a Gestapo invadiu o seu esconderijo. Tinham sido denunciados por um colaborador nazi infiltrado na resistência holandesa.
Deportada para o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, Eva sobreviveu lado a lado com a mãe, Fritzi Geiringer. O seu pai, Erich, e o seu irmão mais velho, Heinz, não tiveram a mesma sorte, tendo sido assassinados no campo. A 27 de janeiro de 1945, as tropas soviéticas libertaram o campo. Eva e a mãe estavam entre os sobreviventes, mas fisica e psicologicamente devastadas.
O reencontro com Otto Frank e uma nova família
Após a guerra, de regresso a Amesterdão, ocorreu um reencontro que definiria o resto da sua vida. Numa busca desesperada por notícias do pai e do irmão no campo principal de Auschwitz, Eva deparou-se com um homem esquelético que mal reconheceu: era Otto Frank, o pai de Anne, o único sobrevivente da sua família imediata. “Ele levantou-se devagar e dolorosamente, ainda alto e digno, e inclinou-se ligeiramente para mim. ‘Eu sou Otto Frank… E tu és Eva Geiringer, não és? A amiguinha da Anne.’ E com isso, ele levou-me nos braços e abraçou-me”, contou Eva nas suas memórias.
Este laço fortaleceu-se quando, em 1953, a mãe de Eva, Fritzi, casou com Otto Frank. Desta forma, Eva tornou-se postumamente meia-irmã de Anne Frank, unindo para sempre as suas histórias.
Eva mudou-se para Londres, onde estudou fotografia, conheceu e casou com o economista Zvi Schloss, refugiado judeu-alemão, com quem teve três filhas. Durante décadas, escolheu o silêncio sobre o seu passado. “Fiquei em silêncio durante anos, primeiro porque não me era permitido falar. Depois reprimi-o. Estava zangada com o mundo”, confessou numa entrevista em 2004.
O despertar de uma educadora incansável
A sua postura mudou radicalmente em 1986, quando foi convidada a falar na inauguração de uma exposição sobre Anne Frank em Londres. Percebeu então que o mundo não tinha aprendido as lições do Holocausto. “Percebi que o mundo ainda não tinha aprendido sobre os acontecimentos entre 1939 e 1945, que continuava a haver guerras e que persistia a perseguição, o racismo e a intolerância. Então decidi partilhar a minha experiência”, explicou.
A partir desse momento, dedicou a vida à educação. Em 1991, cofundou o Anne Frank Trust UK, uma organização que visa desafiar o preconceito através da educação de jovens entre os 9 e os 15 anos. Tornou-se numa oradora incansável, percorrendo escolas, universidades e até prisões em todo o mundo, partilhando o seu testemunho. Escreveu três livros, incluindo a sua autobiografia “Eva’s Story“.
O seu trabalho foi amplamente reconhecido. Foi condecorada com a Ordem do Império Britânico (MBE) e, em 2021, readquiriu a nacionalidade austríaca, numa cerimónia simbólica em Londres. Em 2022, numa receção comunitária judaica, partilhou uma dança com o então Príncipe de Wales, o Rei Carlos III, um momento que simbolizava o respeito e a afetividade que inspirava.
Até ao fim, a sua mensagem foi clara e urgente: “Nunca devemos esquecer as terríveis consequências de tratar as pessoas como ‘outras’. Precisamos de respeitar todas as raças e religiões. A única forma de conseguir isto é através da educação, e quanto mais cedo começarmos, melhor”.
Eva Schloss deixa três filhas, netos e bisnetos. A família, num comunicado, descreveu o seu luto, expressando o desejo de que o legado da sua mãe “continue a inspirar através dos livros, filmes e recursos que ela deixa para trás”. O mundo perde uma voz crucial da memória, mas fica o eco poderoso do seu apelo à humanidade e à tolerância.









