A meia distância entre a glória e o esquecimento, há o gelo tático. E foi com precisão cirúrgica que Francesco Farioli o aplicou no Estádio do Dragão, onde o FC Porto, com um golo precoce e um autocontrole férreo, asfixiou o Benfica (1-0) e ditou a eliminação das águias dos quartos-de-final da Taça de Portugal.
O clássico, que teve lugar esta quarta-feira, 14 de Janeiro, prometia fogo de artifício entre os dois gigantes. O Benfica, sob o comando de José Mourinho, tentou cumprir o guião com uma entrada agressiva e a primeira oportunidade clara até pertenceu aos encarnados, com Gianluca Prestianni a atirar por cima da baliza portista, após uma combinação que envolveu Pavlidis e Leandro Barreiro. O jogo, no entanto, inverteria o seu fluxo de forma irreversível e crua. Aos 15 minutos, Gabri Veiga cobrou um pontapé de canto, e Jan Bednarek, central polaco, elevou-se acima de todos para cabecear inapelavelmente para o fundo das redes, perante um Anatoliy Trubin impotente.











O golo dos dragões, como um interruptor, ligou a máquina defensiva portista e ativou a ansiedade benfiquista. O FC Porto esteve perto do segundo golo minutos depois, numa jogada em que Trubin brilhou com uma dupla intervenção sobre Gabri Veiga e depois Victor Froholdt. A partir daí, o retrato do jogo começou a definir-se: o Benfica detinha a bola, mas esbarrava numa muralha azul e branca organizada e numa inquebrantável concentração coletiva.
Os encarnados criaram ocasiões: Sidny Lopes Cabral, o jovem cabo-verdiano contratado já neste mercado de Inverno pelo Benfica ao Estrela da Amadora e neste jogo chamado a titular, numa das suas investidas características, falhou o alvo após passe de Prestianni. À beira do intervalo, após uma defesa heróica de Diogo Costa a um remate rasteiro de Barreiro, a recarga de Amar Dedić acabou por cima da barra, ficando ali resumida uma noite de frustração encarnada.










A segunda parte acabou assim por resultar num monólogo de ataque benfiquista e um exemplo de resistência e gestão portista. A equipa de Mourinho, com a introdução de Sudakov após a lesão de Richard Ríos – teve que sair de maca depois de uma lesão grave no ombro esquerdo –, instalou-se no meio-campo adversário.
A pressão culminou numa série de lances de perigo que, porém, esmoreceram sempre perante Diogo Costa ou a falta de pontaria. Pavlidis forçou o guardião portista a uma defesa forte. Tomás Araújo viu um remate de primeira passar a centímetros do poste e, mais tarde, atirou para as mãos seguras de Diogo Costa.












O cerco final à baliza de Diogo Costa teve o seu momento mais dramático nos descontos, quando um cruzamento certeiro de Schjelderup encontrou Pavlidis completamente isolado à frente da baliza vazia. O grego, o melhor marcador da equipa encarnada na presente temporada, falhou o golo fácil, quando só tinha que encostar a bola a dois metros da linha de baliza, e a equipa às ordens de José Mourinho falhou o ambicionado prolongamento na partida.
O apito final fechou o jogo com a vantagem mínima mas suficiente para o FC Porto e selou a eliminação benfiquista, a segunda consecutiva numa competição de taças, após a saída na Taça da Liga para o Braga.











A vitória portista tem a assinatura tática do seu jovem treinador, Francesco Farioli, e a abordagem deste ao jogo, que tem sido analisada como uma transição do caos para o controlo, materializou-se num plano de jogo perfeito para uma eliminatória.
A equipa azul e branca, compacta e disciplinada, abdicou da posse para controlar os espaços e explorou com eficácia uma bola parada. Foi o triunfo da estrutura sobre a inspiração, do coletivo sobre a individualidade.
Meias-finais com novo sabor
e pressão sobre os grandes










O apuramento do FC Porto para as meias-finais ocorre no mesmo dia em que a competição foi palco de um outro jogo a justificar o velho chavão do “tomba-gigantes”, neste caso mesmo um verdadeiro terramoto. O Fafe, equipa da Liga 3, eliminou o favorito Sporting de Braga, tido atualmente como o quarto grande do futebol português, garantindo uma presença histórica entre os quatro melhores da Taça. A companhia na fase seguinte é ainda feita pelo Torreense, outra equipa que prova que, na Taça de Portugal, o estatuto pouco conta, dando conta do valor que existe em escalões inferiores do futebol luso.
Estes resultados traçam um cenário de enorme pressão para os gigantes que ficaram pelo caminho. Para o Benfica, a eliminação significa o fim de um dos últimos objetivos tangíveis da temporada, depois de já ter sido afastado da Taça da Liga e de ver a distância para a liderança do campeonato alargar-se para dez pontos.














O fracasso duplo nas taças levanta, inevitavelmente, questões sobre o projeto, e para além de Rui Costa, que ainda recentemente mereceu o sim dos associados do Benfica na maior eleição de sempre e que pode agora ser colocado em causa, também o próprio José Mourinho começa a ser contestado, ainda que os adeptos prefiram apontar o dedo acusador à estrutura do clube e aos seus jogadores poupando para já o treinador português mais titulado no futebol internacional.
Já para o Sporting de Braga, que nem sequer começou bem a temporada, tendo permitido que o técnico Carlos Vicens tenha sido inicialmente colocado em causa, volta a viver um momento de crise. Depois de perder a Final da Taça da Liga frente ao arqui-rival Vitória de Guimarães, num jogo em que os bracarense até estiveram na frente, a queda verificada esta quarta-feira no terreno do Fafe constitui uma decepção monumental, um falhanço desportivo que coloca um sério ponto de interrogação sobre o resto da sua campanha.












Em sentido contrários aos que por esta altura lambem as feridas depois das quedas, o FC Porto, líder isolado do campeonato e agora forte candidato à Taça, vê o caminho para a dobradinha abrir-se com promessa, demonstrando que a nova identidade forjada por Francesco Farioli pode, afinal, ser a fórmula para recuperar a hegemonia em Portugal. O caminho da glória no futebol português parece, pelo menos para já, destinado a ser pintado esta época de azul e branco.









