Sob o frio da noite do Porto, o Estádio do Dragão não foi palco de um drama, mas da confirmação de uma tese. O FC Porto, na pele de candidato avassalador ao título, recebeu, desmontou e anulou o Gil Vicente com uma solenidade fria e uma eficiência que ecoa a sete pontos de distância para o mais próximo perseguidor.
O 3-0 final, feito com golos de Samu, de grande penalidade, mas também de Martim Fernandes e William Gomes, selou a 11.ª vitória consecutiva dos dragões na Liga, revelando-se menos como um resultado de paixão desenfreada e mais como um relatório técnico de uma equipa que opera num registo de excelência quase automatizada.
A partida desenrolou-se como um guião previsível, mas nem por isso menos impressionante. Os portistas, comandados por Francesco Farioli, controlaram 58% da posse de bola e criaram quase todos os lances de perigo. Do outro lado, o Gil Vicente, corajoso e até perigoso mas apenas em flashes — como o livre de Luís Esteves que bateu no poste aos 67 minutos —, esbarrou na muralha defensiva mais sólida do campeonato, que somou o seu décimo quarto jogo concluído sem que Diogo Costa tenha sofrido qualquer golo.




Penálti sobre Samu
desbloqueou o jogo
A abertura do marcador surgiu de forma cirúrgica: aos 37 minutos, Samu converteu uma penalidade, assinalada depois de um lance em que o internacional espanhol foi agarrado dentro da área portista, impondo a lógica territorial do Porto. Este golo deu para desbloquear o jogo, mas o verdadeiro ponto de viragem aconteceu a partir de uma precipitação visitante.
Aos 69 minutos, Martín Fernández foi colocado em jogo pelo técnico César Peixoto, mas, dois minutos depois, acabou por ser expulso depois de ter entrado de forma altamente imprudente sobre Thiago Silva com o pé no peito do jogador brasileiro do FC Porto.
O árbitro não hesitou, considerou aquela entrada uma conduta violenta, e deixou o Gil Vicente reduzido a dez homens, ficando ali aniquiladas quaisquer esperanças de recuperação. A partir daí, o Porto administrou o jogo com a precisão de um relojoeiro.
Aos 75 minutos o jovem Martim Fernandes, uma das revelações da temporada, apareceu na segunda linha para disparar de fora da área para o segundo golo, liquidando a manutenção de qualquer suspense, e se dúvidas ainda existissem apareceu o terceiro golo, aos 86 minutos, por William Gomes, num contra-ataque letal que colocou o ponto final na discussão da partida e carimbou o triunfo portista.





Máquina portista
segue sobre rodas
Esta vitória do conjunto às ordens de Farioli não permite apenas a soma de mais três pontos, consolidando também um estatuto. O FC Porto, com 55 pontos, mantém uma vantagem de sete pontos sobre o Sporting e dez sobre o Benfica, num campeonato que parece correr em faixas paralelas. Já para o Gil Vicente, a derrota, aliada ao resultado do Sporting de Braga nesta jornada, em que goleou por 5-0 a formação do Alverca, significou a queda da turma de Barcelos do quarto para o quinto lugar na tabela, um golpe duro na ambição europeia da equipa orientada por César Peixoto.
No final desta partida, quem assistiu ao jogo no Dragão acompanhou a exibição de um campeão em estado puro: uma equipa que não precisa de espetáculo pirotécnico, que transforma o controlo tático em golos e que capitaliza implacavelmente os erros adversários. Enquanto os rivais tropeçam e lutam entre si, os dragões, com uma serenidade quase inquietante, continuam a sua marcha imparável.
É certo que se completou com este jogo a 19.ª jornada de um total de 34, mas também fica claro que o título, a este ritmo, não será conquistado em Abril ou Maio, estando antes a ser forjado por Farioli e os seus pupilos, meticulosamente, noite após noite, jogo após jogo, com a frieza de quem sabe que a consistência é a mais poderosa das armas.









