Na tarde deste domingo, 18 de janeiro, ocorreu na Andaluzia um dos acidentes ferroviários mais graves em Espanha na última década, quando dois comboios de alta velocidade colidiram violentamente perto da localidade de Adamuz, na província de Córdoba. O acidente resultou em pelo menos 40 vítimas mortais e provocou mais de 150 feridos, dos quais cerca de duas dezenas permaneciam em estado grave ao final da manhã desta segunda-feira.
De acordo com o relato feito pelo ministro espanhol dos Transportes, Óscar Puente, o acidente, que descreveu como “tremendamente estranho”, ocorreu por volta das 19h45 (18h45 em Lisboa) quando um comboio da operadora privada Iryo, com destino a Madrid, sofreu um descarrilamento dos seus três últimos vagões na zona do apeadeiro de Adamuz, uma área onde existe uma subestação de manutenção e um ponto de mudança de agulhas. Nesse preciso instante, estes vagões invadiram a via paralela onde circulava um comboio da empresa pública Renfe, que seguia em sentido contrário, de Madrid para Huelva.
A colisão foi extremamente violenta: o impacto projetou os dois primeiros vagões do comboio da Renfe, lançando-os por um aterro desnivelado relativamente à linha férrea com cerca de quatro metros de altura. Foi precisamente nesta secção frontal do comboio da Renfe que se registou a maioria das vítimas mortais.
O acidente mobilizou um enorme dispositivo de emergência, com a participação da Unidade Militar de Emergências, da Guarda Civil, bombeiros, e equipas médicas. O resgate foi complexo e difícil devido à violência do impacto que deixou os vagões destroçados. Os feridos foram transportados para hospitais da região, como o Reina Sofía em Córdoba, e um Posto Médico Avançado foi instalado no local para triagem .
Quatro portugueses entre as vítimas

Entre os cerca de 400 passageiros e tripulantes que viajavam nos dois comboios, foram sinalizados dois cidadãos portugueses. O Ministério dos Negócios Estrangeiros português confirmou, posteriormente, que ambos se encontram bem. Um deles foi atendido e recebeu alta hospitalar, enquanto o outro já se encontra em sua casa.
Quanto às causas exatas da acidente, estas permanecem sob análise. Contudo, fontes próximas da investigação revelaram aos meios de comunicação que os peritos encontraram um carril partido no local, nomeadamente uma peça de junção que se rompeu, criando um intervalo perigoso entre os troços (imagem anterior). Esta falha, que se crê ser antiga, poderá ter sido determinante para o descarrilamento, sendo este facto considerado especialmente intrigante pelas autoridades, uma vez que o troço em questão, uma reta, tinha sido completamente renovado em maio de 2025, num investimento de 700 milhões de euros, e o comboio Iryo (um modelo Frecciarossa 1000) era praticamente novo, com menos de quatro anos e inspecionado poucos dias antes.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, cancelou a sua agenda para visitar o local e prometeu uma investigação “absolutamente transparente”, tendo o Governo decretado três dias de luto nacional (de terça a quinta-feira). De Portugal, o primeiro-ministro Luís Montenegro e o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, manifestaram total solidariedade e disponibilizaram apoio técnico.

Uma das maiores tragédias recentes
O acidente em Adamuz é, segundo as primeiras avaliações, o mais mortífero em Espanha desde a tragédia ferroviária de 2013 na Galiza. Nesse ano, um comboio descarrilou a alta velocidade na curva de Angrois, perto de Santiago de Compostela, provocando 80 mortos e 140 feridos. A investigação concluiu que a causa foi o excesso de velocidade numa zona com limite reduzido.
O contraste entre a tragédia de 2013, potencialmente ligada a erro humano, e as circunstâncias “estranhas” e técnicas apontadas no acidente de Adamuz, sublinha a complexidade dos sistemas de alta velocidade e a importância crítica da manutenção das infraestruturas, mesmo nas linhas mais modernas.









