Quem questionar um qualquer assistente de Inteligência artificial menos assertivo sobre o resultado do jogo deste domingo entre Sporting de Braga e Benfica corre o risco de receber a indicação de que o Benfica ganhou por 3-2, tal foi o ênfase que o técnico José Mourinho, no final do jogo, colocou nessa informação. Porém, fê-lo usando a ironia já que a partida entre arsenalistas e benfiquistas terminou com um empate a dois golos, isto depois do VAR Tiago Martins ter descoberto uma suposta falta cometida por Richard Rios sobre Vítor Carvalho, no início de uma jogada concluída por Aursnes com o que seria o terceiro golo benfiquista.
Certo é que o Estádio Municipal de Braga foi palco, este domingo, de muito mais do que um mero jogo de futebol da 16.ª jornada da Liga. Perante um relvado encharcado e uma bancada a fervilhar, o Benfica e o Sporting de Braga protagonizaram um embate de intensidade brutal, concluído com um empate a dois golos que deixou a equipa de José Mourinho a sentir o sabor amargo de uma vitória que acredita ter-lhe sido usurpada. Um golo anulado, a velha sombra de Tiago Martins no VAR e o afastamento na luta pelo título compuseram o cenário perfeito para uma tempestade de críticas que se abateu sobre os árbitros no final da partida.







A primeira parte pertenceu, sem margem para dúvidas, à equipa da casa, sem dúvida a grande falha de José Mourinho que, sabendo que não se poderia dar ao luxo de perder pontos neste jogo, estava impedido de dar uma parte de avanço ao adversário como efectivamente deu. O Braga, sólido e dinâmico, impôs o seu ritmo, anulou as tentativas iniciais do Benfica e chegou a colocar a bola dentro da baliza de Trubin, num lance em que Otamendi foi tocado no rosto por Ricardo Horta com o árbitro a anular o golo considerando jogo perigoso do capitão do Braga.
Acabou por ser a equipa de Mourinho a abrir o marcador, aos 29 minutos, num cabeceamento impecável do capitão Nicolás Otamendi, após um livre cobrado por Sudakov. Mas a vantagem foi efémera. Primeiro, um penálti claro de Samuel Dahl sobre Dorgeles permitiu a Rodrigo Zalazar, aos 38 minutos, empatar da marca de grande penalidade. Depois, numa jogada de puro desespero encarnado nos descontos, um erro individual de Richard Ríos — que escorregou dentro da área ao tentar dominar a bola — ofereceu a Pau Víctor a oportunidade perfeita para, com um remate colocado, completar a reviravolta e fazer 2-1 no intervalo.
Benfica acordou e assumiu
o comando do jogo ao intervalo












O que se seguiu após o apito para o segundo tempo foi uma transformação radical. A reação do Benfica foi assertiva, dominante e quase avassaladora. Aos 53 minutos, numa transição rápida, Pavlidis serviu Fredrik Aursnes, que disparou uma bomba imparável de fora da área para o fundo das redes de Matúš Hornicek, repondo a igualdade. A partir daí, as águias assumiram o comando total do jogo, pressionando em bloco alto e criando as oportunidades mais claras. Foi nesse domínio que surgiram os lances que viriam a incendiar a noite.
Aos 75 minutos, o que parecia ser o golo da vitória benfiquista foi anulado após intervenção do VAR. Samuel Dahl, após serviço de Ríos, fez o 3-2, mas o árbitro principal, João Gonçalves, foi chamado ao monitor para analisar um contacto entre Richard Ríos e Vítor Carvalho no início da jogada. A suposta falta, por um toque nada perceptível a julgar pelas imagens e contestadíssima, ditou a invalidação do golo. José Mourinho, a partir do banco, não teve dúvidas: “Ganhámos 3-2… vi e revi no monitor. O golo é limpo”, afirmaria depois, recorrendo à ironia para evitar “ser fortemente penalizado”. O sentimento de injustiça agravou-se minutos mais tarde, quando Pavlidis viu outro remate nas redes ser anulado, desta vez por fora de jogo.










O empate, que poderia ter sido uma vitória, sentiu-se como uma derrota no seio benfiquista. O Benfica, agora com 36 pontos, vê a distância para os rivais na luta pelo título aumentar, correndo o risco de terminar o ano civil a dez pontos do líder FC Porto, que joga apenas amanhã, segunda-feira, frente ao “lanterna vermelha” AVS. Foi este cenário desolador para as águias que desencadeou uma guerra de palavras sem papas na língua. Mourinho, que inicialmente ironizou (“Ganhámos 3-2”), foi depois direto ao ponto na conferência de imprensa: “Obviamente [teríamos ganho]. Marcámos três golos limpos… Há coisas estranhas: há clubes que ganham muitos pontos com erros e outros que perdem pontos com muitos erros”.
Mas a faísca final veio da presidência dos encarnados. Rui Costa, presidente do Benfica, não poupou o VAR Tiago Martins, ligando explicitamente o erro de hoje a outro trauma recente. “O último jogo que [Tiago Martins] tinha feito era o da Taça de Portugal… ver esta falta e não ter visto o que se passou na final da Taça de Portugal… estamos de acordo”, criticou, referindo-se ao pisão não assinalado de Matheus Reis sobre Andrea Belotti, na final perdida para o Sporting na época passada. Para Rui Costa, o lance de hoje foi um “golo completamente limpo” anulado de “forma completamente inacreditável”.
O Braga, que também teve os seus motivos de queixa — com o seu presidente, António Salvador, a apontar um penálti não assinalado sobre Pau Víctor no início do jogo e o capitão Ricardo Horta a ser expulso por acumulação de amarelos — não ficou indiferente à polémica. Salvador foi ainda mais longe, questionando publicamente se Tiago Martins teria “condições” para arbitrar jogos do Benfica, dada a história recente, uma afirmação que Rui Costa viria a reforçar.










Assim terminou o último grande jogo do ano na I Liga. Não com um simples apito final, mas com o eco de acusações graves, a sensação de injustiça e a sombra persistente de uma tecnologia que, em vez de apaziguar, tem alimentado o conflito ao longo da presente época, mantendo a arbitragem no olho do furacão e contribuindo para as dúvidas quanto à eficácia do VAR no que à verdade desportiva diz respeito.
No balneário benfiquista, a mensagem é de que ninguém “atira a toalha ao chão”. Mas o caminho para o título, após mais dois pontos perdidos na Pedreira, e quando pela frente está um mês com jogos decisivos em todas as cometições — Taça de Portugal, Taça da Liga, Liga dos Campeões e Campeonato da I Liga — tornou-se uma subida muito mais íngreme para os pupilos de José Mourinho. A cinco pontos de distância do Sporting, que entretanto goleou o Rio Ave esta noite em Alvalade, e potencialmente a 10 pontos do FC Porto, que joga apenas amanhã, o Benfica tem todas as razões para ver de modo muito preocupado o ano de 2026 que aí vem cada vez mais longe dos “carros da frente”.









