A manutenção de um selecionador estrangeiro à frente da Seleção Nacional deve ser avaliada não apenas pelos resultados, mas também pela identidade, pela evolução da equipa e pela capacidade de potenciar uma geração de enorme talento.
A experiência de Roberto Martínez na seleção belga terminou aquém das expectativas e, na minha opinião, a sua contratação pela Federação Portuguesa de Futebol revelou-se uma decisão pouco feliz. Os êxitos alcançados por Portugal resultam, sobretudo, da qualidade excecional dos jogadores e da cultura competitiva que estes desenvolveram nos maiores clubes europeus.
Sempre que a equipa segue de forma rígida o modelo de jogo do selecionador, perde intensidade, criatividade e capacidade para assumir o controlo dos encontros. Em muitos jogos, é o talento individual que resolve as dificuldades e não uma ideia coletiva de jogo claramente trabalhada. Ao fim de vários anos, continua a ser difícil identificar uma identidade própria, um fio condutor ou uma personalidade coletiva que distinga esta Seleção.
Basta olhar para algumas das principais seleções mundiais. A Espanha procura dominar através da posse de bola; a Alemanha caracteriza-se pela intensidade e organização; a Itália mantém uma identidade competitiva muito própria; a Argentina de Lionel Scaloniconstruiu uma equipa com espírito de sacrifício e enorme união; a França de Didier Deschamps alia talento a uma ideia de jogo consistente. Em todas elas é possível reconhecer uma marca do treinador. Em Portugal, essa marca continua pouco evidente.
Também não sou daqueles que defendem que um selecionador tem obrigatoriamente de ser português. A nacionalidade nunca deve ser o principal critério. Contudo, quem assume o comando da nossa Seleção deve compreender profundamente a cultura futebolística portuguesa, conhecer a mentalidade dos nossos jogadores e sentir o privilégio de representar um país com uma história ímpar no futebol mundial. Não basta possuir um currículo internacional; é necessário criar uma ligação emocional e estratégica ao projeto.
Portugal tem produzido alguns dos melhores treinadores do mundo. De José Mourinho a Jorge Jesus, de Abel Ferreira a Rúben Amorim, a escola portuguesa é reconhecida internacionalmente pela sua competência. É legítimo perguntar porque razão um país que exporta treinadores de excelência continua a procurar no estrangeiro quem lidere uma das melhores gerações de futebolistas da sua história.
A minha crítica não é dirigida à nacionalidade de Roberto Martínez, mas à ausência de uma evolução visível da equipa. Com o talento que Portugal possui, a Seleção deveria apresentar um futebol mais consistente, dominante e afirmativo. Quando isso não acontece, é natural questionar se o problema reside nos jogadores ou em quem os orienta. Na minha opinião, a resposta é cada vez mais evidente.

Zeferino Boal define-se, ele próprio, como um cidadão, angolano e português, livre pensador e de ação cívica. Com carreira militar na FAP e formação na área da gestão, desempenhou funções públicas, políticas, desportivas e privadas de que se orgulha de terem sido marcadas sempre pela dedicação e responsabilidade.









