Naquela que foi a primeira reação de Cristiano Ronaldo ao “caso” que se está a passar em redor da Seleção Nacional, CR7 confirmou ao final da tarde desta quarta-feira ter abandonado a concentração da Seleção depois da conferência de imprensa de Jorge Jesus e de uma conversa com o presidente da FPF.
Estamos assim perante a saída de Cristiano Ronaldo do grupo de trabalho na concentração da Seleção Nacional na Dinamarca, mas mais importante do que isso estamos perante o virar de costas de CR7 às Seleção Nacional da qual foi capitão nas últimas duas décadas.
Cristiano Ronaldo deixou votos de boa sorte a Portugal e a todos os companheiros, “sem exceção” — o que, na prática, deixa o selecionador de fora. A irmã, Kátia Aveiro, foi mais longe e atacou o país inteiro.
O que CR7 escreveu
O comunicado surgiu ao final da tarde de quarta-feira, poucas horas depois de Jorge Jesus ter garantido, na conferência de imprensa em Copenhaga, que “não havia caso nenhum” e que era ele quem mandava na equipa. CR7 não demorou a responder — e fê-lo à sua maneira, sem dar entrevistas, sem passar por ninguém.
Num post na rede social Instagram, começa por explicar a sequência: depois da conferência do selecionador e na sequência de uma conversa com o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, tomou a decisão de deixar o estágio. Não houve meias-palavras sobre o motivo, mas também não o detalhou. Guardou-o para depois: “A seu tempo, direi a verdade a todos os portugueses sobre as razões que motivaram a minha saída da equipa nacional, à qual sempre me dediquei.”
A frase é pesada. Ao dizer que vai “dizer a verdade”, CR7 está a sugerir que a versão que o país ouviu até agora — a de Jorge Jesus, a da Federação — não é a verdade completa. E ao dizer “a seu tempo”, deixa claro que escolhe ele o momento, não a comunicação social nem o selecionador.
No fim, os agradecimentos: boa sorte a Portugal e a todos os companheiros de equipa, “sem exceção”. Esta última expressão foi lida de imediato como um recado. Se fossem todos, não precisava de sublinhar o “sem exceção”. Ao fazê-lo, marca uma fronteira: o problema não é com os jogadores, não é com o grupo, não é com o país, mas é só e apenas com uma pessoa: o selecionador Jorge Jesus.

A reação da irmã
Pouco depois,Katia Aveiro, irmã de Cristiano, publicou o seu próprio texto no Instagram em comentário ao do irmão — e o tom foi bem diferente. O irmão falou em verdade e em respeito pelo grupo; a irmã falou em ressentimento acumulado e disparou em todas as direções.
“CR7 merecia mais respeito, a seleção merecia mais estrutura, o jornalismo português merecia mais competência e menos especulação.”
Até aqui, o alvo era o sistema. Mas depois virou-se para o país:
“Em relação aos portugueses, bem… Não merecem ter o melhor em coisa alguma. Somos invejosos, desdenhosos, ignorantes e merecemos voltar à mediocridade que sempre fomos no futebol pré-CR7.”
E rematou: “Obrigado por tudo CR7! Merecias mais!”
FPF confirma saída de Ronaldo
e aponta o foco ao jogo com a Dinamarca
Logo depois do post de Cristiano Ronaldo no Instagram, a Federação Portuguesa de Futebol limitou-se a confirmar a saída de CR7 do estágio e a garantir que “a preparação para os jogos com a Dinamarca e a Noruega prossegue conforme planeado, com os restantes 24 jogadores convocados.”
Não houve palavra de lamentação, não houve pedido de regresso, não houve tentativa de pôr panos quentes. A mensagem, entre linhas, é clara: a equipa continua sem ele.
Depois do que se passou na Noruega, depois de CR7 ter ficado os noventa minutos no banco e não ter acompanhado os colegas na habitual ida à zona dos adeptos e ter seguido direto para o balneário, depois de CR7 não ter participado nos treinos de conjunto — a Federação falou em trabalho de ginásio e treino individualizado, mas o ruído já não parava, Jorge Jesus tentou desvalorizar tudo na conferência de imprensa desta quarta-feira: disse que era gestão física planeada, que treinou CR7 um ano e sabe como o gerir, que houve apenas um erro seu — tê-lo mandado aquecer cedo demais — e que nenhum jogador muda aquilo que ele pensa.
Em cima desta conferência de imprensa, Cristiano Ronaldo ouviu, digeriu o tema e não demorou a reagir, certamente surpreendendo toda a estrutura da Seleção Nacional. Decidiu que não treinava, não ficava no grupo de trabalho e iria abandonar. Mandou chamar o seu jato privado, que saiu durante a tarde de Madrid para Copenhaga tendo plano de voo para às 23:30 (hora local de Copenhaga) ainda nesta quarta-feira para o regresso a Madrid, e publicou o post em que dá conta da sua saída da Seleção de Portugal.
O ambiente que se segue
A Turma das Quinas joga esta quinta-feira com a Dinamarca, em Copenhaga, e a equipa vai alinhar sem o seu capitão e, muito provavelmente, com Gonçalo Ramos na frente. Do ponto de vista puramente desportivo, a Seleção tem plantel para responder. Do ponto de vista do ambiente, o problema é outro.
CR7, que deixou os trabalhos da Seleção de Portugal no dia em que o seu pai deveria celebrar mais um aniversário, deixou uma promessa em aberto — “direi a verdade” — e essa promessa vai pairar sobre tudo. Cada conferência de imprensa de Jorge Jesus, cada jogo da Seleção, cada resultado menos bom vai reabrir a mesma pergunta: quando é que ele fala, e o que é que ele vai dizer? Enquanto isso não acontecer, o assunto não morre. Apenas fica à espera.
E fica também uma fratura difícil de colar. Jorge Jesus ganhou esta batalha de autoridade, mas fê-lo contra o jogador mais importante da história do futebol português, e com uma parte significativa dos adeptos a olhar para o lado dele com desconfiança. Ganhar jogos vai ajudar. Perder um que seja, com CR7 calado à espera do seu momento, vai ser muito mais complicado.









