O regresso do Académico de Viseu à I Liga, 37 anos depois de ter caído para os escalões inferiores, podia ter sido um pesadelo para o Benfica no jogo disputado este domingono Estádio da Luz, em Lisboa, concluído com um empate (2-2) que penaliza a ausência de eficácia dos encarnados e, ao invés, premeia o querer dos viriatos, que por duas vezes repuseram a igualdade depois da equipa da casa ter marcado na baliza viseense.
Num jogo disputado sem público nas bancadas, fazendo lembrar os tempos da pandemia por COVID, quando o futebol teve que prosseguir nos estádios de todo o mundo em jogos “à porta fechada”, o Académico de Viseu acabou por escrever um primeiro capítulo memorável nesta sua estreia na I Liga, com um resultado certamente agridoce para o conjunto encarnado, sobre quem ficaram mais perguntas do que respostas sobre a respectiva solidez defensiva.












Bancadas vazias foi positivo
para o Académico de Viseu
À parte do resultado, a verdade é que este não foi, de todo, um jogo como os outros. A principal nota prévia era o cenário: portas fechadas e bancadas vazias, sem adeptos. Tudo porque o Benfica foi obrigado a cumprir um castigo da Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD) por uso de artefactos pirotécnicos em cinco jogos da época 2022/23. Apesar disso, sendo certo que o estádio estava vazio por dentro, estava cheio por fora, isto porque o Benfica criou uma fan zone que juntou milhares de adeptos, cujo entusiasmo se ouviu dentro do relvado – especialmente quando os golos caseiros surgiram no marcador.
O silêncio forçado nas bancadas acabou ainda assim por ser um factor incontornável, e o técnico do Académico, Bruno Pinheiro, admitiu ao LusoNotícias no final do jogo que esse detalhe favoreceu a sua equipa: “Estaria a mentir se dissesse que não gostei de jogar desta forma, até porque acredito que de outro modo, se o Benfica tivesse tido o apoio dos seus adeptos, dificilmente o resultado ao intervalo não teria sido bem mais desequilibrado.”












Defesa encarnada sem garra
foi determinante no desfecho
Com ou sem público, dentro das quatro linhas o jogo começou de acordo com as expectativas, com a equipa da casa a dominar e a criar oportunidades, e o Académico de Viseu a procurar preencher o seu meio-campo defensivo, fechando os caminhos para a baliza à guarda de Ewerton. O Benfica entrou forte, fez o primeiro golo bem cedo na partida pelo suspeito do costume, Pavlidis, logo aos 10 minutos, em resposta a um passe magistral de Prestianni, e pôde a equipa da casa criar depois disso inúmeras situações de perigo para as redes dos viriatos.
O domínio da equipa encarnada foi evidente, mas faltou a eficácia para transformar essa superioridade num resultado volumoso, num jogo em que a defesa mostrou fragilidades. Muito permeável, comprometeu a equipa, principalmente nos lances dos golos do Académico, tudo isto num jogo com dois cenários: aquele em que o Benfica marcou e se adiantou por duas vezes no marcador, e outro bem distinto em que a turma viseense tirou partido da falta de consistência defensiva benfiquista, sector que permitiu o empate final no jogo de arranque no campeonato da I Liga.










Ficha de Jogo:
Equipa do Benfica: Samuel Soares; Alexander Bah (Dedic, 82′), Tomás Araújo, Clément Lenglet e Samuel Dahl; Enzo Barrenechea e Leandro Barreiro (Richard Rios, 76′); Rafa Silva (Lukebakio, 76′), Georgiy Sudakov (Andreas Schjelderup, 63′) e Gianluca Prestianni (Jhon Durán, 82′); Vangelis Pavlidis
Equipa do Académico de Viseu: Ewerton; Robinho, Rúben Pereira (Gohi, 74′), Anthony Correia e Milioransa; Kahraman (Ferreira, 74′) e Soufiane Messeguem; Álvaro Zamora (Pedro Silva, 74′), Alejandro Mestanza e João Guilherme; André Clóvis (Steczyk, 79′)
Ação disciplinar: amarelos para Mestanza (16′), A. Correia (20′), Sudakov (25′), Tomás Araújo (45′), Ceitil (80′) e Milioranza (90’+02′)
Golos:
- 1-0, Pavlidis (10′)
- 1-1, Rúben Pereira (55′)
- 2-1, Prestianni (58′)
- 2-2, André Clóvis (68′)
”All in” de Marco Silva foi insuficiente
para garantir os três pontos
No segundo tempo, e em face da marcha do marcador, Marco Silva viria a apostar num verdadeiro “all in”, colocando todos os seus recursos ofensivos em campo. Acabou o jogo com dois avançados posicionais, Pavlidis e Durán, num esforço final que visava o desbloquear do resultado, impondo uma pressão máxima à qual a defesa viseense soube resistir.
Ficam deste jogo alguns destaques individuais, nomeadamente do lado do Benfica, para as exibições de Barreiro e, principalmente, de Prestianni, elementos que deram tudo e procuraram conferir dinâmica e criatividade à equipa encarnada. Já do lado do Académico, Robinho e Kahraman foram os pilares que seguraram o resultado e assinaram exibições seguras.










A nota negativa, num jogo em que haverá sempre a lamentar a ausência de público, numa decisão ímpar das estruturas dirigentes do futebol português — o futebol só faz sentido para e com os adeptos, seja de equipa forem –, acaba por ter que ser atribuída, inevitavelmente, ao sector defensivo do Benfica, pouco assertivo, demasiado macio e que custou os dois primeiros pontos perdidos pela equipa encarnada no campeonato que agora começa.
Os milhares de adeptos que encheram a fan zone em redor do Estádio da Luz acabaram por deixar aquele local com a frustração de quem viu a sua equipa a desperdiçar uma oportunidade de ouro para começar com o pé direito. O Benfica criou oportunidades suficientes para vencer, mas acabou por ser o Académico de Viseu a celebrar o seu primeiro ponto e desde logo no terreno de um “grande”, mostrando que está na I Liga com a ambição de uma temporada tranquila.

















