Candido Mota

Morreu Cândido Mota, voz histórica da rádio e da televisão portuguesa

Cândido Mota, uma das figuras mais emblemáticas da comunicação social em Portugal, morreu na madrugada deste domingo, dia 3 de maio, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, aos 82 anos. De acordo com a família, o antigo locutor, que já se encontrava doente há algum tempo, faleceu “sem sofrimento, rodeado da família e amigos próximos”.

Nascido com uma “voz maravilhosa”, como descreveu o amigo e colega Júlio Isidro, Cândido Mota construiu uma carreira ímpar que atravessou várias décadas e regimes políticos. A sua consciência política manifestou-se cedo. Enquanto trabalhava no Rádio Clube Português (RCP), viveu por dentro o momento fundador da democracia portuguesa, tendo estado nas instalações da estação durante a Revolução de 25 de Abril de 1974, assegurando a continuidade das emissões que informavam o país sobre a queda da ditadura.

A partir de 1965, afirmou-se como uma das vozes centrais do programa Em Órbita, que revolucionou o panorama musical nacional ao divulgar o melhor da música anglo-americana. Mais tarde, em 1979, alcançou uma popularidade massiva com o programa O Passageiro da Noite, na Rádio Comercial. Para além da rádio, Cândido Mota foi também um rosto familiar da televisão, destacando-se como braço direito de Herman José em formatos icónicos como a Roda da Sorte e Com a Verdade Me Enganas.

Militante do Partido Comunista Português (PCP), o radialista era uma “presença indissociável da Festa do Avante!”, onde foi, durante mais de 35 anos, a voz anfitriã e o rosto do Palco 25 de Abril.

Reações
A notícia do seu falecimento gerou uma onda de pesar entre figuras públicas e colegas de profissão. O Presidente da República, António José Seguro, deixou uma nota de condolências oficiais, enaltecendo a “voz inconfundível” de Cândido Mota e sublinhando que o seu legado “vai ficar para sempre na memória coletiva dos portugueses”.

O locutor Júlio Isidro, que manteve uma amizade de 58 anos com Cândido Mota, afirmou em declarações à RTP que se perdeu “um dos maiores nomes da rádio dos últimos 50 anos”. Isidro destacou não só a qualidade vocal do amigo, mas também a sua “cultura extraordinária” e a capacidade de escrever “prosas maravilhosas”, referindo a admiração mútua que tinham, apesar de terem diferenças políticas e religiosas que os colocavam em quadrantes opostos.

Herman José, com quem trabalhou extensivamente, recordou-o como uma “pessoa positiva” e um homem de conversas memoráveis. Em declarações à Rádio Observador, Herman José descreveu os longos diálogos noturnos que Cândido Mota mantinha com o seu pai sobre política e religião: “O meu pai era um homem convicto de direita, ele era um homem convicto de esquerda, mas tinham uma dialética formidável, daquelas que criaram ciúmes, algo que hoje em dia ninguém quer ouvir ninguém”.

O Partido Comunista Português também emitiu um comunicado a manifestar “profundo pesar”, classificando Cândido Mota como “um cidadão profundamente empenhado na intervenção social e cultural” e reiterando que a sua voz era “um símbolo de serenidade e entusiasmo”.

Cerimónias Fúnebres
O velório do radialista realiza-se esta segunda-feira, com a cerimónia de cremação a decorrer na terça-feira, às 13h00, no Cemitério do Alto de São João, em Lisboa.

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