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Silvino Louro, a humildade de um guarda-redes único

Morreu esta quinta-feira Silvino Louro, aos 67 anos, um dos mais carismáticos e respeitados guarda-redes do futebol português, cuja carreira em campo e cujo trabalho como técnico específico deixaram uma marca indelével no desporto nacional. Internado no Hospital de São José, em Lisboa, o antigo jogador do Benfica e FC Porto não resistiu à doença oncológica prolongada que o afastava dos relvados nos últimos tempos, deixando uma comunidade futebolística em luto e um legado que transcende as balizas que defendeu.

Nascido em Lisboa, a 5 de março de 1959, Silvino Alberto Louro cresceu no futebol de formação do Sporting, onde se estreou como sénior, mas foi no Benfica, clube ao qual chegou em 1980, que conquistou os títulos mais expressivos e firmou o nome na história do futebol português. De águia ao peito, viveu a época mais gloriosa da sua carreira, integrando o plantel que, orientado por Sven-Göran Eriksson, alcançou a final da Taça dos Campeões Europeus em 1988, em Estugarda, num percurso que ficaria para a memória coletiva.

A sua segurança entre os postes, aliada a uma rara leitura do jogo e a uma discrição fora das quatro linhas, fizeram dele um pilar dessa equipa, tendo sido determinante na célebre meia-final frente ao Steaua de Bucareste, ao defender um penálti que abriu as portas da decisão europeia.

A sua singularidade enquanto atleta residia também na rara distinção de ter representado dois dos três grandes do futebol português — após a passagem pelo Benfica viria a representar o Porto, numa altura em que essas transferências eram vistas como autênticos fenómenos de mercado —, mas também formações icónicas do futebol europeu já na condição de técnico de guarda-redes como adjunto de José Mourinho. Longe da imagem do guarda-redes instintivo e exuberante, Silvino destacava-se pela frieza, pela colocação exemplar e por uma serenidade que lhe permitiu somar mais de 30 internacionalizações pela seleção nacional, sendo presença assídua no Europeu de 1984 e no Mundial de 1986.

Terminada a carreira de jogador, no início dos anos 90, Silvino Louro reinventou-se como uma referência incontornável no comando técnico de guarda-redes, tendo trabalhado ao lado de José Mourinho em clubes como o FC Porto, mas também Chelsea, Inter de Milão, Real Madrid e Manchester United. Pôde assim orientar alguns dos grandes guarda-redes do futebol internacional como Vítor Baía, Petr Čech ou Júlio César nomes ímpares nas balizas que conquistaram o prémio de Melhor Guarda-Redes atribuído pela UEFA.

O seu legado está, assim, duplamente edificado: o do atleta elegante e seguro, que protagonizou alguns dos momentos mais altos do futebol português nos anos 80, e o do técnico que soube transmitir saber e conhecimento. Deixa por isso Silvino Louro um percurso feito de entrega, discrição e excelência, durante o qual provou as suas qualidades como atleta e como homem.

Num tempo em que os guarda-redes são cada vez mais protagonistas, recorda-se a figura de um homem que ensinou que a verdadeira grandeza naquela posição se faz tanto com as mãos como com a humildade e a inteligência com que se interpreta o jogo. Fica a memória de um dos grandes nomes da história do futebol português, dentro e fora das quatro linhas.

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