Mario Zambujal

Morreu Mário Zambujal, o contador de histórias que vestia a língua com um sorriso

O jornalista e escritor Mário Zambujal faleceu esta quinta-feira, 12 de março, em Lisboa, uma semana depois de completar 90 anos. Deixa uma obra marcada pelo humor inteligente e pela ternura com que olhava o país, e a memória de um profissional que unia gerações nas redações e nos ecrãs.

Morreu um dos mais queridos e versáteis nomes da cultura portuguesa. Mário Zambujal, que completara 90 anos no passado dia 5 de março, não resistiu e faleceu esta manhã no Hospital da Luz, em Lisboa, deixando um legado que atravessa mais de meio século de jornalismo, rádio, televisão e literatura. A informação foi avançada pela família e confirmada pelo Clube de Jornalistas, instituição que presidiu entre 2007 e 2021 e que o distinguira em 2025 com o Prémio Gazeta de Mérito.

Nascido em Moura, no Alentejo, em 1936, Mário Joaquim Marvão Gordilho Zambujal cresceu na Amareleja e no Algarve antes de rumar a Lisboa, mas nunca perdeu a ligação à terra e a forma peculiar de olhar o mundo. Foi ainda adolescente, aos 15 anos, que viu o primeiro texto ser publicado no semanário “Os Ridículos”, mas foi no jornalismo que deu os primeiros passos profissionais, numa carreira que o levaria por redações como as de A BolaDiário de LisboaO SéculoRecordDiário de Notícias ou Tal e Qual onde desempenhou funções de direção e chefia.

Se a imprensa escrita foi a sua escola, a televisão fez dele um rosto familiar para os portugueses. Apresentador do histórico programa desportivo Grande Encontro, na RTP, e autor de guiões inesquecíveis para séries como Lá em Casa Tudo Bem (com Raul Solnado) ou para o programa de rádio Pão com Manteiga (na Rádio Comercial), Zambujal possuía um estilo próprio, feito de serenidade e de um humor elegante que nunca caía no facilitismo. “Era uma pessoa que regava as amizades”, recordou ao Expresso a editora Cristina Ovídio, sublinhando a sua “escrita fresca, despretenciosa, com umas personagens que nos eram sempre muito próximas”.

Mas foi em 1980 que Mário Zambujal conquistou um lugar definitivo no imaginário coletivo. A publicação de “Crónica dos Bons Malandros” tornou-se um fenómeno editorial. A história de um grupo de pequenos criminosos lisboetas, inaptos e humanos, que planeiam o roubo de uma peça de René Lalique no Museu Gulbenkian, conquistou leitores de todas as idades pela ironia e pela ternura com que são tratadas as figuras. A obra, que o próprio definia como “a síntese divertida de uma tragédia”, foi adaptada ao cinema por Fernando Lopes, deu origem a uma série de televisão e a um musical, atravessando gerações e consolidando o autor como um “eterno bom malandro”.

A partir daí, a produção literária não mais parou. Títulos como Histórias do Fim da RuaÀ Noite Logo se VêPrimeiro as SenhorasCafuné ou Uma Noite Não São Dias foram sucessos de livraria. Até ao fim, manteve a escrita como um refúgio e uma disciplina. Em dezembro de 2025, publicou o seu último romance, O Último a Sair, um “policial desatinado” que o autor fez questão de entregar aos leitores, mantendo a promessa de que enquanto pudesse, continuaria a contar histórias. Em março deste ano, o mercado viu chegar edições comemorativas dos seus 90 anos, com prefácios de figuras como Marcelo Rebelo de Sousa e Gonçalo M. Tavares, que o escritor ainda pôde ler e que o deixaram “muito feliz”, nas palavras da filha, Isabel Zambujal.

Para além das condecorações — era Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e tinha a medalha de Mérito Cultural da Câmara de Lisboa —, Mário Zambujal deixa um testemunho de rigor e de afeto. Maria Flor Pedroso, atual presidente do Clube de Jornalistas, recordou-o como “uma das pessoas mais completas da nossa vida pública”, alguém que “vivia a vida em pleno” e que “cumprimentava demoradamente”. Alice Vieira, colega de longa data, sublinhou ao Expresso a rara capacidade de ensinar sem ralhar: “Se alguém se enganava, dizia: ‘Está muito bem, mas ainda pode estar um bocadinho melhor'”.

O velório de Mário Zambujal estará patente na Basílica da Estrela, em Lisboa, no sábado, a partir das 17h00, seguindo-se missa às 20h00. O funeral realiza-se no domingo, às 11h00, no Cemitério do Alto de São João, em cerimónia reservada à família. Ao país, fica a obra e a memória de um homem que fez da palavra bem-dita um ato de elegância.

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