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Bandidos do Cante vencem Festival e quebram boicote à Eurovisão

A noite deste sábado ficou marcada pela consagração do cante alentejano na 60.ª edição do Festival da Canção, mas também pelo desfecho de uma das finais mais atípicas de sempre, condicionada por um boicote sem precedentes à participação no concurso europeu. Os Bandidos do Cante, grupo natural de Beja, conquistaram a vitória na final do Festival da Canção 2026 com o tema “Rosa”, numa decisão que só foi totalmente conhecida quando se somaram os votos do júri regional e do público.

A canção, que abre com a declaração de amor à terra alentejana — “Ao montado, ao sobreiro, ao primeiro olival / Esta rosa que trago, cheira a terra e a sal” —, foi a mais votada pelos espectadores, recebendo a pontuação máxima de 12 pontos, aos quais se somaram os 10 pontos atribuídos pelos júris das sete regiões do país.

Apesar de “Rosa” ter obtido apenas o segundo lugar na preferência dos júris regionais — que elegeram “Canção do Querer”, de João Ribeiro, como a sua favorita com 12 pontos —, a força do voto do público revelou-se determinante para o desfecho final. O sistema de votação, que atribui metade da pontuação ao júri e metade ao televoto, acabou por consagrar a proposta alentejana com um total de 22 pont

Em segundo lugar classificou-se Dinis Mota com o tema “Jurei”, somando 16 pontos, numa atuação que muitos consideraram uma das mais carismáticas da noite. A canção, descrita como tendo uma “vibe festiva e dançável, com raízes portuguesas muito bem presentes”, chegou a ser apontada como uma das principais ameaças à vitória dos Bandidos do Cante. Em terceiro lugar ficaram os Nunca Mates o Mandarim com “Fumo”, também com 16 pontos, mas prejudicados pelo desempate favorável a Dinis Mota, já que o cantor aveirense obteve 10 pontos do público contra oito da banda portuense.

Os favoritos que ficaram pelo caminho

As semanas que antecederam a final colocaram várias canções na linha da frente das preferências. “Jurei”, de Dinis Mota, surgia consistentemente como um dos temas mais fortes, tanto nas plataformas de streaming — onde somava mais de 51 mil audições no Spotify — como nas análises dos especialistas. A canção distinguia-se pela sua energia e pela presença em palco do intérprete, com uma mistura de estilos que muitos consideravam ter “o pacote completo” para brilhar na Eurovisão.

Outro dos nomes dados como certo na luta pela vitória era André Amaro com “Dá-me a Tua Mão”. O cantor, que juntamente com os Bandidos do Cante era um dos poucos finalistas a garantir a comparência em Viena caso vencesse, apresentava uma proposta que aliava “boa voz, excelente canção, instrumental rico” e uma fusão entre modernidade e tradição portuguesa. No entanto, a atuação na final não terá convencido totalmente, valendo-lhe apenas um oitavo lugar final com oito pontos.

“Fumo”, dos Nunca Mates o Mandarim, era outra das canções mais escutadas antes da final, com mais de 35 mil reproduções no Spotify, e acabaria por confirmar o terceiro lugar, beneficiando de uma boa pontuação tanto do júri como do público. Já “Canção do Querer”, de João Ribeiro, apesar de ter sido a grande vencedora da votação do júri regional com 12 pontos, não convenceu os espectadores, que lhe atribuíram apenas dois pontos, atirando o tema para um modesto quarto lugar na classificação final.

No espectro oposto, EVAYA com “Sprint”, que alguns analistas consideravam ter “aproveitado mais e melhor o palco da RTP” com uma encenação dinâmica e apelativa para televisão, acabou por ser a grande derrotada da noite, somando apenas três pontos e fechando a classificação.

O peso do boicote e a emoção da vitória

A edição deste ano ficará para a história não apenas pela qualidade musical, mas sobretudo pelo contexto polémico que a rodeou. Sete dos dez finalistas subscreveram um boicote à participação no Festival Eurovisão da Canção, em protesto contra a presença de Israel no concurso europeu, devido aos ataques militares na Faixa de Gaza. Esta posição, assumida publicamente ainda em dezembro, lançou uma sombra de incerteza sobre a final, com a RTP a ver-se obrigada a preparar cenários de recurso caso o vencedor fosse um dos subscritores.

Os Bandidos do Cante estiveram desde o início entre os poucos que garantiram que, se o público e o júri os escolhessem, representariam “Portugal com responsabilidade, respeito e dignidade”. Num comunicado publicado nas redes sociais em dezembro, o grupo explicava que não tinham “uma posição única em nome da banda sobre questões internacionais complexas”, respeitando quem escolhesse o boicote mas acreditando que “o Festival da Canção e a Eurovisão existem, antes de tudo, para celebrar canções, compositores e artistas”.

No momento da vitória, a emoção tomou conta do grupo. “Os nossos avós devem estar orgulhosos de certeza. Foram eles que nos ensinaram o cante e o cante ganhou o festival da canção de Portugal”, afirmaram os artistas logo após serem anunciados como vencedores. Em lágrimas, dois dos elementos deixaram palavras de apreço: “Obrigado a todos os que votaram em nós. Esta música foi feita para o Alentejo, com o Alentejo, e para todo o mundo”, disse Luís Aleixo.

A final, apresentada por Filomena Cautela e Vasco Palmeirim nos estúdios da RTP, contou ainda com atuações especiais dos NAPA — vencedores do ano anterior — e dos Throes + The Shine, que protagonizaram um tributo aos êxitos de 1986.

Com esta vitória, os Bandidos do Cante preparam-se agora para representar Portugal na 70.ª edição do Festival Eurovisão da Canção, que se realiza em maio em Viena, na Áustria, levando o cante alentejano a um dos maiores palcos mundiais.

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fotos: Pedro Pina – RTP

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