A Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR) apresentou o Relatório Anual do setor relativo a 2025, revelando um panorama de avanços pontuais, mas ainda marcado por profundos desafios estruturais. O documento, que analisa dados de 2024, confirma a estabilidade do setor em Portugal Continental, mas evidencia problemas críticos que comprometem a eficiência hídrica, a circularidade dos resíduos e a sustentabilidade económica dos serviços. A fragmentação do setor, com 352 entidades gestoras, muitas delas de pequena dimensão, continua a ser um entrave à necessária economia de escala e à capacidade de investimento.
No capítulo das águas, o relatório destaca que, apesar de uma ligeira redução de 1,3% em relação ao ano anterior, as perdas reais de água ascenderam a 187,3 milhões de metros cúbicos em 2024, um volume equivalente a 8,7 piscinas olímpicas por hora. A este desperdício somam-se os problemas estruturais de uma rede envelhecida: a taxa de reabilitação de condutas é de apenas 0,5% ao ano, muito aquém dos 1,5% considerados necessários, e a inspeção de coletores com mais de uma década é residual. A ERSAR sublinha que a ineficiência hídrica tem um custo elevado, estimando que uma redução de 80% nas perdas e afluências indevidas, aliada à reutilização de águas residuais tratadas, poderia gerar uma poupança anual de 158 milhões de euros.
Na área dos resíduos urbanos, o panorama é igualmente desafiador. A acessibilidade física à recolha seletiva permanece baixa, com apenas 61% de cobertura, e a taxa de reciclagem situa-se nos 32%, um valor insuficiente face à meta de 55% fixada para 2030. A dependência do aterro como destino final mantém-se elevada (55%), contrariando as diretivas comunitárias. A implementação de sistemas de tarifação que incentivem a redução e a separação na origem, como o PAYT (pay as you throw), continua muito incipiente, estando disponível apenas em 21 entidades gestoras, maioritariamente no setor HORECA, e longe de abranger a totalidade dos alojamentos.
Apesar dos constrangimentos, o relatório regista progressos na acessibilidade física aos serviços, com 97% da população coberta pelo abastecimento de água e 90% pelo saneamento, e uma melhoria na adesão dos utilizadores às redes, que atingiu os 90% em ambos os setores, um objetivo traçado há mais de uma década. Contudo, a sustentabilidade económica dos serviços é uma preocupação crescente, especialmente nas entidades de gestão direta e de menor dimensão, onde as tarifas praticadas não cobrem a totalidade dos custos operacionais e de manutenção. A ERSAR reforça que, sem um investimento continuado no conhecimento das infraestruturas e na reabilitação das redes, o setor dificilmente conseguirá dar resposta às exigências ambientais e às metas de sustentabilidade que se avizinham.









