V Guimarães 2-1 Braga 4760

O Renascer do Orgulho: Como o Vitória lutou e conquistou a Taça da Liga

Este sábado, 10 de janeiro, no Estádio Dr. Magalhães Pessoa em Leiria, escreveu-se um capítulo indelével na história centenária do Vitória Sport Clube. Mais do que uma vitória por 2-1 sobre o Sporting de Braga, mais do que a conquista inédita da Taça da Liga, foi a afirmação de uma identidade: a de um clube que se recusa a ser apagado, que transforma sofrimento em glória e que, treze anos após o último título, provou que o tempo de espera só engrandece o sabor da conquista.

O ambiente em Leiria era o de um verdadeiro dérbi do Minho, com as bancadas em harmonia vibrante a cantar pelas suas cores. O jogo, porém, começou a ser ditado pelos homens de Carlos Vicens.

O Braga, experiente, dono de três Taças da Liga no palmarés, saiu com a convicção de quem procurava o quarto título. Ricardo Horta já tinha avisado Charles com um remate perigoso, e aos 16 minutos a ameaça materializou-se.

Um livre de Mario Dorgeles, executado com uma precisão cirúrgica, encobriu o guardião vitoriano e mergulhou a massa alvinegra num silêncio atordoado. O pesadelo do golo cedo e a sensação de uma superioridade bracarense palpável instalaram-se.

Braga entra melhor no jogo… e marca

Na primeira parte, o Vitória de Luís Pinto parecia perdido no seu próprio jogo, com ligações cortadas e uma ansiedade visível. O Braga, pelo contário, esteve a um passo de matar o duelo. Antes do intervalo, uma falha de comunicação entre Charles e Strata podia ter sido fatal, não fosse o próprio defesa redimir-se com uma defesa heróica em cima da linha, evitando o segundo golo de Dorgeles. Foi um sinal de vida, um aviso de que a resistência, essa característica intrínseca do Vitória, ainda lá estava.

O despertar veio de onde menos se esperava: do banco. Luís Pinto, o jovem treinador que chegou a esta final sob desconfiança, acertou nas mudanças. Aos 54 minutos chamou ao jogo Samu e Camara e a partida virou em quatro minutos.

Vítor Carvalho tocou na bola com a mão dentro da área, o VAR chamou Hélder Malheiro, e o penálti foi assinalado. Samu, frio, converteu e restabeleceu a igualdade aos 58 minutos. De repente, a energia que parecia concentrar-se nas pernas dos bracarenses inundou o sector vitoriano. O dérbi tinha uma nova vida.

Vitória acordou desde o banco… e virou o resultado

Impulsionados pelo empate, os homens de Guimarães começaram a acreditar. Nélson Oliveira esmagou um remate de trivela na trave. Mas a reviravolta tinha um nome predestinado: Alioune Ndoye. O herói da meia-final contra o Sporting entrou em campo e, aos 83 minutos, confirmou o seu estatuto de homem dos momentos decisivos. Subiu mais alto que todos num canto, cabeceou com uma autoridade inquestionável e fez explodir Leiria em branco e negro. Foi um golo que valia muito mais que um título; era a materialização de uma crença que teimava em renascer.

O epílogo foi digno do drama que o precedeu. Nove minutos de compensação, uma defesa prodigiosa de Charles sobre Fran Navarro, e um penálti a favor do Braga nos descontos, após expulsão de João Mendes, ele que atingiu Víctor Carvalho no rosto quando ambos saltaram na disputa de uma bola cruzada para a pequena-área. O árbitro Hélder Malheiro assinalou de imediato a grande penalidade, o VAR confirmou-a, e a emoção no recinto de Leiria subiu ao nível do bonito castelo de Leiria.

Depois do Braga ter estado a vencer e ter permitido que os vimaranenses conseguissem a cambalhota no marcador, estava naquela grande penalidade a oportunidade de uma nova reviravolta nos números do jogo. Zalazar, o mesmo homem que foi herói dos arsenalistas quando o Braga eliminou o Benfica na meia-final, assumiu a responsabilidade de bater o castigo máximo.

O camisola 10 do Sporting de Braga colocou a bola na marca e com a taça a pairar sobre a sua decisão, partiu para a bola, perante a expectativa dos adeptos nas bancadas. E foi então que apareceu uma vez mais o guarda-redes Charles, o herói anónimo da noite, ele que adivinhou o canto para onde tinha que se lançar, voou, estou-se e defendeu, soltando um berro de libertação com o qual selou o destino do troféu.

Depois de Ndoye ser herói, Charles foi o Homem do Jogo

A loucura entre as gentes de Guimarães instalou-se. O árbitro apitou pouco depois, num jogo que demorou 115 minutos depois de terem sido dados nove minutos de compensação, e treze anos de espera dos homens do Vitória dissiparam-se em lágrimas de alegria.

Quando a poeira assentou, e os jogadores do Vitória formaram um corredor de honra para os vencidos do Braga, seguido do gesto recíproco dos bracarenses, percebeu-se a magnitude do momento. Aquela não foi apenas uma vitória desportiva. Foi uma conquista identitária, territorial e cultural. Num país acostumado à hegemonia dos “três grandes”, e numa região onde a rivalidade com o Braga é visceral, o Vitória ergueu um troféu que simboliza a sua própria essência: a luta incansável, a resiliência e a capacidade de se levantar sempre que cai.

O Vitória SC provou, mais uma vez, que é maior do que o seu palmarés. E em Leiria, na noite de 10 de janeiro, esse palmarés ganhou, finalmente, o brilho merecido de um Campeão de Inverno.

texto: Jorge Reis
fotos: Luís Moreira Duarte

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