Foi formalizada na passada sexta-feira, 23 de novembro, no Porto Innovation Hub, a criação do Fórum Vinculação de Talento na Engenharia. A iniciativa, que juntou a Ordem dos Engenheiros (OE), empresas de referência e instituições académicas, tem como objetivo central combater o défice estrutural de engenheiros em Portugal e inverter a tendência de emigração de quadros qualificados.
A cerimónia de assinatura do memorando de entendimento contou com a presença do ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, que sublinhou o “enorme potencial de crescimento” das áreas da engenharia em Portugal. “A engenharia é a base para conseguirmos mudar o país”, afirmou, comprometendo o apoio do seu ministério. O governante enfatizou a necessidade de estimular o interesse pelas ciências e tecnologias desde os primeiros anos de escolaridade, garantindo um ensino de qualidade e um acesso equitativo a estas áreas de formação, onde Portugal já possui reconhecida excelência.
A dificuldade em atrair jovens para os cursos de engenharia foi um dos pontos amplamente debatidos. Para José Júlio Alferes, diretor da NOVA FCT e presidente do Consórcio de Escolas de Engenharia, o problema não se resume à exigência da matemática. “Questões mais genéricas, nomeadamente o acesso a habitação com custos suportáveis e próxima das instituições académicas”, são entraves decisivos, referiu, apelando à intervenção do Governo.











Do lado das empresas, os parceiros do Fórum corroboraram a urgência do problema. Miguel Cruz, presidente da Infraestruturas de Portugal, destacou a “incapacidade de manutenção de um corpo técnico qualificado permanente”, agravada pela falta de planeamento estável de projetos a médio e longo prazos. Já Miguel Fontes, Partner da Deloitte – empresa com 1.400 engenheiros entre os seus 5.700 colaboradores em Portugal –, salientou que a atração e retenção de talento é “fundamental” para a sua dinâmica de recrutamento.
O diagnóstico partilhado pelas entidades é claro: Portugal enfrenta uma dupla crise. Por um lado, uma procura residual em engenharias tradicionais (como a Civil), vistas pelos jovens como pouco atrativas. Por outro, um acentuado ‘brain drain’, com jovens profissionais a emigrarem devido a salários pouco competitivos, elevada carga fiscal, perda de poder de compra e escassas perspetivas de progressão na carreira, sobretudo no setor público.
As consequências são profundas: escassez de mão-de-obra em áreas críticas, limitação da capacidade das empresas para executar projetos do PRR e competir globalmente, incapacidade de renovação dos quadros técnicos do Estado e perda do retorno do investimento público no ensino superior. Este cenário compromete a competitividade económica e a soberania técnica do país.








Segundo o bastonário da OE, Fernando de Almeida Santos, este Fórum surge como “uma plataforma de mobilização” para criar condições que atraiam mais jovens para a engenharia e fixem os profissionais em Portugal, “criando uma contracorrente ao atual êxodo de competências”.
A coordenação do Fórum estará a cargo de António Martins da Costa, presidente da PROFORUM, que defende ser crucial “aproximar o currículo académico às necessidades das empresas e do tecido produtivo”. A sessão contou ainda com a participação da vice-presidente da Câmara Municipal do Porto, Catarina Araújo, e da vereadora da Educação, Talento e Conhecimento, Matilde Rocha.
O Fórum Vinculação de Talento na Engenharia pretende assim funcionar como um agente catalisador, unindo esforços do setor público, privado e académico para travar uma das maiores fragilidades estratégicas do país.








