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Plataforma junta artesãos para evitar que ofícios desapareçam

Como há ofícios em Portugal que dependem de uma só família, a nova plataforma Ra-Ro permite que os artesãos possam vender as suas peças através da internet.

A Ra-Ro já agrupa 40 artesãos, muitos deles os últimos a dominar o seu ofício, e quer duplicar esse número até ao final do ano.

A plataforma vende peças feitas à mão, uma a uma, algumas das quais levam semanas a ficar prontas. Luís Serra, cofundador da Ra-Ro, realça que “num país em que o interior perde gente todos os anos, há saberes inteiros que dependem de uma única família. Se não houver quem compre, não há razão para ensinar quem vem a seguir. A ra-ro.eu existe para criar esse mercado.”

Entre os artesãos da plataforma está César Teixeira, de Gondar (Amarante). Ele e o filho, João, são os últimos a cozer o barro negro em soenga, uma técnica com mais de 400 anos. Se pararem, a técnica desaparece.

Outro caso, em Bisalhães (Vila Real), cuja olaria negra foi classificada pela UNESCO como património em risco, restam seis oleiros, a maioria idosos.

Ainda por Trás-os-Montes, Nuno Pereira é hoje o único produtor do Vinho dos Mortos, em Boticas, um vinho que se enterra para envelhecer desde as invasões francesas.

Também só há oito artesãos certificados para fazer o Bordado de Guimarães. Duas delas trabalham n’A Oficina, que vende na Ra-Ro. E ainda os casos de Helena Novelletto, uma das últimas tecedeiras de bunho do país, e de Isidoro Ramos, um dos poucos que ainda colhe esparto nas serras do interior algarvio.

Apoio a artesãos

A Ra-Ro foi criada por três amigos, que passaram um ano a testar produtos com o público e a ganhar a confiança dos artesãos antes do lançamento. Os 40 artesãos da plataforma, reunidos em 29 oficinas e produtores, vêm de mais de 20 concelhos, do Minho aos Açores, e trabalham cestaria, cerâmica, têxteis, madeira, cortiça, lã, vidro, cobre, sal e instrumentos musicais.

Os fundadores da plataforma lembram que tudo tem o seu tempo: Uma viola braguesa construída à mão por Diogo Valente demora cerca de oito semanas a ficar pronta, um cobertor de papa, tecido por Céu Reis em Maçainhas (Guarda) num tear com mais de 300 anos, leva cerca de quatro.

Como a maioria dos artesãos nunca teve uma loja online e muitos vendem apenas em feiras ou à porta de casa, a Ra-Ro acompanha-os em cada passo: fotografa as peças, conta a sua história, trata das encomendas, da embalagem e do envio para Portugal e para o estrangeiro.

Índice Ra-Ro

A plataforma tem o índice Ra-Ro, uma classificação que mede quão difícil é encontrar cada peça e quantas mãos ainda a sabem fazer. Tem cinco níveis: Invulgar, Escasso, Raro, Raríssimo e Único.

Das 141 peças disponíveis no lançamento, 60 são classificadas como Raríssimas, por serem feitas por poucos artesãos com técnicas em risco, e cinco são peças únicas, que não se repetem. Feitas as contas, quase três em cada quatro peças (103 de 141) estão nos três níveis mais altos do índice: Raro, Raríssimo ou Único.

A Ra-Ro assinala também que a plataforma está a levar o artesanato português para fora do país, com encomendas que chegaram da Alemanha, do Reino Unido, da Irlanda, de França e da República Checa.

Luís Serra frisa em comunicado que quando “um oleiro de Gondar ou uma tecedeira de Maçainhas vendam para Londres ou Berlim sem deixar a aldeia, cada peça que sai de Portugal é mais uma razão para o ofício continuar.”

Por fim, a Ra-Ro destaca que conta também a história dos artesãos em vídeo: a curta-metragem ‘Made of Time’, sobre o barro negro de Gondar, recebeu quatro prémios, e há 19 curtas sobre quem faz cada peça.

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