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Morreu Jorge Palma (1950-2026): uma voz que vai continuar

O cantor e compositor Jorge Palma morreu na noite desta segunda-feira, 21 de Setembro, aos 76 anos, vítima de uma paragem cardiorrespiratória. A notícia foi confirmada pela família e pela agência do músico, que pediram que o autor de “Frágil” e “Deixa-me Rir” seja lembrado “pelas suas canções e palavras”.

Nascido em Lisboa, em 1950, Palma começou a tocar piano em casa antes sequer de ter aulas formais. “Era o meu brinquedo”, contou numa entrevista, recordando que reproduzia de ouvido o que ouvia na rádio. A mãe, pianista, percebeu-lhe o jeito e pôs-lhe um professor aos seis anos. Chegou a ficar em segundo lugar num concurso internacional de piano em Palma de Maiorca, em 1963, mas aos 14 anos trocou a música clássica pelo pop-rock — “miúdas, festa, aquelas coisas”, como resumiu.

Antes de gravar em nome próprio, passou pelos Sindicato, grupo com que tocou na primeira edição do Festival de Vilar de Mouros, em 1971. No ano seguinte, lançou o primeiro single, “The Nine Billion Names of God”, inspirado num conto de Arthur C. Clarke. Recebeu o pagamento em eletrodomésticos — uma máquina de lavar e um frigorífico — porque a editora de Arnaldo Trindade também vendia electrodomésticos.

Pouco depois viria a ser chamado para a tropa. Recusou ir à guerra e exilou-se na Dinamarca, onde lhe foi concedido asilo político. Voltou a Portugal depois do 25 de Abril e editou o primeiro álbum, “Com uma Viagem na Palma da Mão”, em 1975.

A carreira discográfica foi feita de altos e baixos, mas há dois momentos que ficaram gravados na memória colectiva. Em 1985, “O Lado Errado da Noite” trouxe “Deixa-me Rir”, talvez a canção mais reconhecível do seu repertório. Quatro anos depois, “Bairro do Amor” consolidou-o como um dos grandes autores portugueses, sendo frequentemente citado entre os melhores álbuns da música nacional. Seguiram-se “Só” (1991), onde revisitou canções antigas apenas com voz e piano, e o álbum “Jorge Palma” (2001), que lhe valeu o Prémio José Afonso. Em 2007, “Voo Nocturno” apresentou “Encosta-te a Mim”, outra daquelas baladas que toda a gente conhece, mesmo sem saber quem a escreveu.

Nos últimos anos, partilhou o palco com os filhos Vicente e Francisco no espectáculo “3 Palmas na Mão”. O último álbum de originais, “Vida”, é de 2023.

As reações à morte começaram a aparecer pouco depois de a notícia ser conhecida. O primeiro-ministro Luís Montenegro escreveu no X que “Jorge Palma parte, mas a sua música fica. Fica nas palavras, nas melodias e na memória de várias gerações”. E acrescentou que o músico “ajudou a transformar” a cultura portuguesa “com a sua voz única e músicas intemporais”. A família pediu que as cerimónias fúnebres sejam anunciadas em devido tempo e que, para já, Jorge Palma seja recordado sobretudo pelas canções.

Fica uma obra de mais de meio século, feita de canções que atravessaram gerações sem perderem nada. Como o próprio disse uma vez, cada disco corresponde a um momento da vida — “com quem me dava, com quem vivia, o tipo de vida que levava, o que ouvia e lia”. É por isso que ainda hoje soa tão próximo.

Para o Jorge Palma, fica a mensagem dos seus versos:
“Enquanto houver estrada para andar, a gente não vai parar, enquanto houver estrada para andar!”

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fotos: Jorge Palma/Facebook

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