O sol começava a esconder-se, por trás da linha baixa de edifícios que contorna os jardins do Casino Estoril, quando Ivete Sangalo subiu ao palco circular instalado naquele espaço. Os ponteiros dos relógios aproximavam-se das 19 horas e o calor do sol que até ali se tinha feito sentir bem forte começava a dar lugar a uma atmosfera mais suave, mais convidativa para o que se seguiria. Cerca de cinco mil pessoas ocupavam o terço inferior do relvado, mais próximo da marginal e do Tamariz, e a energia que vinha do público era palpável — não a de uma multidão de 90 mil almas como a que costuma recebê-la quando marca presença no Rock in Rio, mas algo diferente: mais próximo, mais pessoal.
“Mulher, porque Portugal é que me escolheu”, disse Ivete numa entrevista recente, a propósito da estreia internacional deste projeto. E esta noite na “chique cidade do Estoril”, como disse já em palco, provou que a escolha foi certeira. Ivete Sangalo, aos 54 anos, está no país onde diz sentir-se “em casa”, e comportou-se como quem recebe velhos amigos na sua sala de estar.






Plateia de “gostosos”
O espectáculo, marcado para as 18h30, atrasou-se um pouco. Mas quando Ivete surgiu, com aquela energia que parece não ter prazo de validade, o atraso foi imediatamente perdoado. Cumprimentou o público com a garra de sempre, salpicando o discurso com algum vernáculo – “gostosos do cara***” – que puxou ainda mais a plateia para o seu lado. Se havia ali alguém que não estava completamente entregue, não durou muito tempo a ceder.
Este projecto — “Ivete Clareou” — nasceu no Brasil em 2025 como uma homenagem a Clara Nunes, a primeira música que Ivete aprendeu a cantar inteira, ainda menina, com apenas três anos. “Clareou” vem da canção de Clara Nunes, uma referência que para Ivete é tão antiga quanto a memória musical que guarda da infância em Juazeiro, na Bahia. O espectáculo não é um tributo directo a Clara, como a cantora fez questão de explicar, mas é certamente atravessado por ela, pela herança que deixou, pelo samba que pulsa nas veias da baiana.






Uma roda de samba
O palco circular, montado no meio do jardim, permitia que o público envolvesse Ivete de todos os lados. A ideia era essa mesma: uma roda de samba gigante, onde a cantora e a plateia se encontrassem ao mesmo nível, numa troca directa, sem distâncias. Ivete Sangalo conduziu a noite com a mestria de quem domina o palco há mais de três décadas, mas há algo de mais descontraído aqui, mais solto. Não estava a actuar para uma multidão de 60 a 90 mil pessoas como no Rock in Rio; estava a oferecer um encontro mais íntimo, onde a gestão do espectáculo podia ser mais orgânica, mais improvisada.
E improvisou-se muito. O set list foi um desfile interminável de clássicos e homenagens. Abriu com a voz de mãe de Isis, uma introdução que já antecipava o tom emocional da noite. Seguiram-se “Marechera”, “Curtindo a Vida”, e uma versão de “Água de Chuva” de Beth Carvalho que fez o público cantar em coro.







Pelas 20h, um grupo de três músicos juntou-se a Ivete para três ou quatro temas. Foi um momento que trouxe ainda mais calor à já quente noite. Mas o grosso do espectáculo foi Ivete a solo, comandando a maratona de canções com uma forma física que muitos invejariam. Aos 54 anos, a cantora parece ter descoberto a fonte da juventude, e a prova está na resistência com que atravessou quase quatro horas de música.
O ponto alto chegou com o “Medley Pagodão Ivete”, onde canções como “Vampirinha”, “Energia de Gostosa”, “Macetando” e “Cria da Ivete” incendiaram os jardins. Nesse momento, já perto do fim, o público estava rendido, de pés colados ao chão, mas com a alma pronta para mais.




O regresso às origens
Quando Ivete anunciou o fim, já perto das 23h, não houve quem não sentisse que tinha vivido algo especial. Este projecto é a menina dos olhos de Ivete, como ela própria confidenciou. E percebe-se porquê. Num mundo de mega-concertos e produções gigantescas, “Ivete Clareou” é um regresso à essência, à música que a formou, ao samba que a acompanha desde criança.
Portugal, que a viu crescer e que sempre a acolheu, foi o palco escolhido para a estreia internacional. E a noite no Estoril confirmou que, mesmo fora dos grandes festivais e das multidões, Ivete Sangalo continua a ser, no fundo, a mesma: uma artista que transforma qualquer espaço numa festa e que, como o nome do espectáculo sugere, faz clarear até a noite mais escura com a sua luz.













