O Sporting inaugurou a nova época de futebol em Alvalade com uma vitória tão preciosa quanto sofrida, num jogo concluído com os jogadores leoninos no relvado a corda ao pescoço, assobiados pelos seus adeptos depois de uma partida marcada por enorme ansiedade. A equipa às ordens de Rui Borges venceu o Vitória de Guimarães por 3-2, na segunda jornada da I Liga, mas o resultado final não espelha o que foi um jogo de duas faces completamente distintas. Dos três golos de vantagem ao intervalo aos sustos na reta final, os leões deram um recado claro: esta equipa ainda está em construção e as respectivas “dores de crescimento”, como o treinador fez questão de apontar, vão continuar a aparecer.
A novidade no estádio era a nova área de lazer para os adeptos, com um ecrã de leads que, ironicamente, não tem visibilidade para quem está na bancada central. Mas o que realmente interessava dentro de campo era a repetição das opções da primeira jornada, com Ioannidis a começar como titular e Luis Suárez, mais uma vez, no banco de suplentes.











Primeira parte de luxo,
segunda parte de pesadelo
O arranque foi promissor para os leões. O jovem Flávio Gonçalves, com apenas 19 anos e a titular pela segunda vez na equipa principal, abriu o marcador aos 9 minutos, após assistência de Ioannidis. O grego faria o segundo golo, na resposta a um lance magistral de Geny Catamo, e Altimira, outro dos reforços deste novo Sporting, fechou a contagem do primeiro tempo aos 41 minutos com um remate de meia distância.
Na saída das equipas para os balneários o 3-0 que se verificava era um resultado perfeitamente justo, conseguido por uma equipa que jogara melhor, desinibida, a transmitir vontade e capacidade para os seus adeptos, deixando mesmo a convicção para quem estava nas bancadas que a goleada parecia inevitável.
Só que a segunda parte, a exemplo do que já acontecera no jogo anterior desta equipa do Sporting, frente ao Estrela da Amadora, foi simplesmente um pesadelo, permitindo o renascer de todos os fantasmas da desconfiança face à equipa às ordens de Rui Borges. O Vitória voltou para dentro das quatro linhas com outra atitude e encostou o Sporting às cordas.














Com Strata, Doucet e João Nogueira, que entretanto entraram ao intervalo na turma vimaranense, o conjunto visitante conseguiu assumir o controlo da partida, jogando em todo o campo e anulando o futebol que o Sporting tinha apresentado até ali. Samu, o capitão do Vitória, acabou por fazer o que era temido pelos adeptos leoninos – o golo que iria permitir um “boost” de confiança para o conjunto forasteiro –, reduzindo a desvantagem do Vitória aos 66 minutos. Rui Borges respondeu, procedeu a duas alterações na equipa do Sporting, mas não demorou nem mais um minuto até que o Vitória voltasse a marcar, agora por Ndoye, o homem mais alto do ataque vimaranense a fazer o que dele se esperava: o 3-2 com um cabeceamento perfeito.
Os adeptos nas bancadas de Alvalade, que poucos minutos antes ainda festejavam o que parecia ser uma vitória confortável, rapidamente mudaram de semblante, assumindo a clara ansiedade de quem ainda há menos de uma semana vira a sua equipa a permnitir o empate depois de estar a vencer por dois golos. Os assobios aos jogadores leoninos passaram a ser o novo normal deste jogo, a desconfiança instalou-se e a equipa de Rui Borges tremeu até ao apito final.









Assobios para Suárez
e nervos à flor da pele
O ambiente no Estádio de Alvalade refletiu a tensão. Luis Suárez, que entrou para o lugar de Geny Catamo, passando a jogar ao lado de Fotis Ioannidis, foi recebido com uma sonora assobiadela. O colombiano, que foi o melhor marcador do campeonato na época passada, não atravessa o melhor momento: não está na melhor forma física e tem sido alvo de críticas, com rumores de um possível mal-estar no balneário leonino.
O técnico do Sporting, Rui Borges, na conferência de imprensa, defendeu o jogador, assumindo mesmo algum desconforto quando questionado sobre o avançado – “Não está nas melhores condições físicas para jogar os 90 minutos. É um grande jogador e vai continuar a ajudar o Sporting”.
Outro alvo de críticas foi o guarda-redes Rui Silva. O camisola 1, que já tinha tido uma entrada em falso no jogo da Reboleira (onde ficou mal no golo do empate do Estrela da Amadora), demonstrou nervosismo evidente com a bola nos pés, o que levou a alguns assobios e aumentou ainda mais a pressão sobre a equipa. Manuel Machado, treinador que o lançou no Nacional, já tinha avisado que Rui Silva “tem capacidade para não se deixar afetar por um erro”, mas a verdade é que a ansiedade parece ter contagiado o grupo em Alvalade, uma “virose” que só deverá ser ultrapassada depois de fechado o mercado de transferências nos primeiros dias de Setembro.











Ficha de Jogo
- Jogo: Sporting CP 3-2 Vitória SC
- Local: Estádio José Alvalade, Lisboa
- Data: 14 de agosto de 2026
- Árbitro: David Silva
- Equipa do Sporting – Rui Silva, Vagiannidis (Ivan Fresneda, 83′), Eduardo Quaresma, Gonçalo Inácio, Maxi Araújo, Sergi Altimira, Issa Doumbia, Rodrigo Zalazar, Geny Catamo (Luis Suárez, 67′), Flávio Gonçalves (Luís Guilherme, 67′) e Fotis Ioannidis (John Derry, 75′)
- Treinador: Rui Borges
- Equipa do Vitória – Zych, Miguel Maga (Doucet, 46′), Oscar Rivas, Thiago Balieiro, João Mendes, Beni Mukendi (Strata, 46′), Samu (Ouotro, 88′), Gonçalo Nogueira (Santiago Silva, 77′), Oumar Camara (João Nogueira, 46′), Gustavo Silva e Alioune Ndoye
- Treinador: Tiago Margarido
- Golos:
- 1-0 Flávio Gonçalves (9′)
- 2-0 Fotis Ioannidis (22′)
- 3-0 Sergi Altimira (41′)
- 3-1 Samu (66′)
- 3-2 A. Ndoye (68′)
- Ação disciplinar: amarelos para Altimira (24′), Geny Catamo (54′) e Gonçalo Inácio (90’+01′) na equipa do Sporting, e ainda para Balieiro (27′), Oscar Rivas (38′), João Nogueira (64′) e Gustavo Silva (79′) no Vitória.
- Assistência: 47.531 espectadores.







“Dores de crescimento”
Rui Borges não escondeu a preocupação em redor da sua equipa e de mais um resultado “apertado” depois de uma exibição menos convincente, acabando na análise ao jogo por falar em “passividade geral” e na quebra física da equipa na segunda parte, que permitiu ao Vitória acreditar no resultado. O técnico justificou as dificuldades com “dores de crescimento”, apontando as mudanças no plantel, com a entrada de muitos jovens e com a necessidade de adaptação a uma maior exigência competitiva. “Não vai ser tudo um mar de rosas. Vamos ter de crescer”, afirmou, pedindo “energia de fora para dentro” por parte dos adeptos.
Já do lado do Vitória, orientado por Tiago Margarido, o técnico vimaranense apresentou uma boa exploração dos espaços que o Sporting deu na segunda parte e, mesmo a jogar em Alvalade, mostrou uma equipa que não joga para se entregar. A turma minhota ainda tentou o empate, mas a experiência leonina (e algum sofrimento) acabou por permitir ao vice-campeão nacional a conquista dos três pontos.








O Sporting soma agora quatro pontos em dois jogos, mas a exibição em Alvalade deixa mais perguntas do que respostas. A vitória sofrida, depois de uma vantagem de três golos, é um alerta para uma equipa que ainda procura a sua identidade. O “ADN Sporting”, tantas vezes evocado por Rui Borges, continua à procura de uma expressão mais consistente, sendo necessário verificar o que se poderá passar na próxima jornada, altura em que poderemos saber se este triunfo frente ao Vitória foi um ponto de viragem ou apenas mais um capítulo de uma história verde e branca que promete muitas emoções.









