Há uma pergunta que muitos portugueses têm feito nos últimos meses: a criminalidade aumentou de facto ou é apenas uma perceção alimentada pelos muitos noticiários? A resposta foi dada pelo Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2025, e a conclusão, como quase tudo na vida, não cabe num “sim” ou “não” redondos, ainda que ambos tenham aumentado.
Com efeito, o relatório mostra que a criminalidade geral participada aumentou 3,1% em relação ao ano anterior, num total de 365.802 participações criminais registadas. Mas este número inclui realidades muito diferentes. Uma parte significativa desse crescimento resulta, segundo o próprio documento, “do maior reforço de fiscalização das autoridades e de uma maior proatividade policial, em áreas como a criminalidade rodoviária, detenção de armas proibidas, desobediência, entre outras”. Ou seja, parte do aumento deve-se a uma ação policial mais eficaz, o que é uma boa notícia.
Já a criminalidade violenta e grave, aquela que mais preocupa e mais ocupa os noticiários, diminuiu 1,6%. Deste modo, Portugal mantém-se, globalmente, um país seguro, uma tendência que se tem verificado ao longo da última década.
Existem ainda assim números que saltam à vista e merecem reflexão. O crime de violação atingiu o valor mais alto da última década. Os homicídios voluntários aumentaram 10,1%. E a violência doméstica, embora tenha descido 1,9% pelo terceiro ano consecutivo, continua a ser o crime mais participado no país: foram 29.644 participações, com 69% das vítimas a serem mulheres. Vinte e uma mulheres, quatro homens e duas crianças perderam a vida neste contexto.
Aumento da informação
dispara a percepção
O cibercrime e as burlas digitais são outra frente em crescimento acelerado. Os crimes informáticos aumentaram 13,4%, com a falsidade informática a disparar 29,1% . A sofisticação dos ataques tem aumentado, com recurso a inteligência artificial e abordagens em português para gerar maior confiança nas vítimas .
E aqui entramos no outro lado da equação: a comunicação social. Está documentado que, em períodos em que a criminalidade desceu, a cobertura mediática sobre o tema disparou. Existe, no entanto, um desfasamento entre aquilo que acontece na realidade e aquilo que chega ao cidadão. Os crimes violentos geram notícias, geram audiência, geram perceção de insegurança e a repetição de casos graves faz com que o cidadão sinta que está a acontecer cada vez mais. Porém, este aumento de percepção acontece mesmo quando os números gerais dizem o contrário.
O que é certo é que a insegurança se tornou também um tema político, e a desinformação tem entrado na equação, polarizando ainda mais o debate. A pergunta inicial não tem, portanto, uma resposta única: o aumento real existe em várias tipologias específicas, mas a perceção amplificada também.

Os números do RASI 2025
O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2025, a principal fonte de dados sobre a criminalidade em Portugal, mostra uma realidade com várias camadas.
O retrato do crime
na análise por distritos
A fotografia nacional esconde assimetrias regionais significativas. Coimbra foi o distrito onde a criminalidade geral mais aumentou: 11%, num total de 11.334 crimes registados, o valor mais alto desde 2016. Leiria acompanhou de perto, com um aumento de 10,7%.
Na criminalidade violenta e grave, os distritos com maiores subidas foram Braga (+11,7%) e Leiria (+11,4%). Em sentido inverso, Lisboa (-3,4%) e Porto (-8,4%) registaram descidas neste indicador, mas mantêm-se como epicentros de criminalidade violenta e contra o património, fruto da densidade populacional e do turismo. Só em Lisboa ocorrem quase 40% dos roubos a residências.
Avaliando outro tema, Lisboa, Porto e Setúbal são os distritos com maior incidência de violência doméstica. Em Coimbra, a criminalidade violenta desceu 10,1%, mas a extorsão sexual aumentou 8% e os incêndios com fogo posto cresceram 50,7%.
Beja, embora tenha registado um aumento de 0,8% na criminalidade geral, mantém-se como o sexto distrito mais seguro do país. Os Açores (-8,8%) e Portalegre (-4,7%) foram as regiões onde a criminalidade mais desceu.
A resposta… mais crime
ou mais informação?
Perante os dados recolhidos, a resposta à pergunta que serviu de ponto de partida para esta análise não poderá ser dada em termos alternativos, mas antes cumulativos. Por um lado, assistimos a um aumento real da criminalidade geral participada (3,1%), impulsionado por uma fiscalização mais eficaz, e aumentos muito significativos em crimes sexuais (violações), homicídios, cibercrime e crime organizado. Contudo, por outro lado, é igualmente verdade que a perceção de insegurança é amplificada pela comunicação social e por fatores políticos, que focam a atenção em crimes violentos e criam uma imagem de insegurança que os números globais da criminalidade violenta grave não sustentam.
A ministra da Administração Interna e o diretor da PJ afirmam que a cobertura mediática gera uma sensação de insegurança desproporcional. Um estudo citado pela RTP indica que, embora a criminalidade tenha diminuído 1,3%, a cobertura sobre o tema aumentou 130%. A repetição de notícias sobre crimes violentos amplifica a perceção de risco, mesmo quando a tendência geral é de estabilidade ou descida.
Já em relação à “qualidade” da insegurança, os crimes que mais marcam a perceção pública são muitas vezes os de natureza violenta. Embora a criminalidade violenta global tenha descido, alguns crimes específicos e violentos, como as violações e os homicídios, registaram aumentos reais e preocupantes, sendo a perceção de insegurança, neste caso, justificada para estas tipologias.
Existe ainda uma face digital do crime. O aumento de burlas online, phishing e crimes financeiros não tem o mesmo impacto visual que um assalto, mas afeta um número crescente de cidadãos no seu quotidiano, criando uma sensação difusa de vulnerabilidade. Ao mesmo tempo, a insegurança tornou-se um tema político, isto porque o debate sobre a criminalidade entrelaça-se, por vezes, com outras questões, como a imigração, por vezes recorrendo a desinformação, o que polariza ainda mais a discussão e a perceção pública.
Em suma, Portugal continua a ser um país globalmente seguro , mas enfrenta desafios específicos e reais que justificam atenção, especialmente nos crimes sexuais, que merecem uma discussão aprofundada. Se quiser, posso explorar mais detalhadamente os números por distrito ou as medidas que estão a ser tomadas para combater estas novas formas de criminalidade.









