No jogo em que a águia Vitória, a mascote dos encarnados, mostrou estar distraída e acabou o seu habitual voo no Estádio da Luz nas cadeiras de um camarote, e não sobre o símbolo dos encarnados, o Benfica somou mais três pontos com a vitória sobre o Estoril Praia por 2-1. O resultado ainda permitiu alguma tensão entre os encarnados no final da partida, com muitos adeptos a temerem que se pudesse repetir o empate da primeira jornada na recepção ao Académico de Viseu, mas oEstoril só acreditou nos instantes finais e já não foi a tempo para roubar pontos ao Benfica.
Há que dar conta que se os canarinhos tivesse conseguido mesmo o empate teria sido injusto, até porque foi o Benfica quem mais falhou e poderia ter conseguido uma vantagem mais dilatada. Assim, assentou bem ao conjunto visitante o golo na baliza de Samuel Soares, mais um esta temporada, mas o empate seria exagerado, até porque teria permitido uma ideia errada sobre um equilíbrio que não se verificou face à vitória justa do Benfica.










Resumindo a forma como decorreu este jogo, a quarta jornada da I Liga trouxe ao Estádio da Luz um cenário que os adeptos benfiquistas já conhecem bem: o domínio territorial, a posse de bola, a construção paciente, mas também a sensação de que o resultado podia ser mais folgado. O 2-1 com que o Benfica bateu o Estoril Praia – com golos de Pavlidis e Lenglet – foi justo e não deixa dúvidas quanto à superioridade da equipa de Marco Silva , mas não conta toda a história de uma noite que teve de tudo: um voo falhado da águia, uma estreia emotiva e um susto final.
A lei do mais forte
e a burocracia ofensiva
Marco Silva não mexeu no onze que vinha de uma vitória convincente, apostando na continuidade. Barrenechea e Barreiro foram chamados ao meio-campo, deixando Palhinha e Manu no banco, e Sudakov voltou a merecer a preferência do treinador dos encarnados atrás de Pavlidis. Do outro lado, Vasco Seabra apresentava um plano bem claro: fechar espaços, anular a criatividade encarnada e jogar no erro. O Estoril apresentou-se para tal com uma linha de cinco atrás e um miolo cerrado, transformando os primeiros 30 minutos num exercício de paciência para os donos do jogo.













Com 74% de posse de bola , o Benfica foi construindo as suas oportunidades. A aposta de Marco Silva para desmontar a defesa adversária passou pela dinâmica no corredor esquerdo, com Dahl, Prestianni e Sudakov a combinarem para criar superioridades numéricas. Foi por ali que a equipa chegou ao golo, ainda que de forma algo inglória: aos 39 minutos, Dahl falhou o remate e Pavlidis, atento, aproveitou a sobra para, com um movimento de meia-volta, fazer o 1-0.
Até ao intervalo, o Benfica podia e devia ter ampliado, com Pavlidis, Rafa e Barreiro a criarem calafrios a Robles, guarda-redes que mostrou qualidade no trabalho apresentado entre os postes da baliza dos canarinhos. O certo é que o acerto do guardião estorilista a meias com a falta de acerto dos avançados do Benfica permitiram o intervalo chegasse sem que a equipa da casa cumprisse o segundo golo que foi prometendo mas também adiando.









Na noite de estreia de Palhinha
o voo da Vitória e o sonho do Salvador
Foi aos 31 minutos que o jogo ganhou um novo protagonista. Enzo Barrenechea, que estava a comandar o meio-campo com uma exibição isenta de falhas, lesionou-se num lance fortuito, forçando a sua saída. A lesão do argentino, que Marco Silva afirmou no final da partida que não deverá ser grave, precipitou o que todos os benfiquistas esperavam: a estreia de João Palhinha.
A entrada do médio, antigo jogador do Sporting, agora com a camisola 36 dos encarnados, foi recebida com uma ovação de pé por parte dos adeptos. As bancadas da Luz vibraram e a energia no estádio mudou de tom. Apesar da sua exibição, na análise de Marco Silva, ter sido positiva mas com espaço para crescer – “vai ter de melhorar muito” -, Palhinha viria mesmo a ser eleitos no final da partida como o homem do jogo, uma nomeação que, mais do pelo futebol apresentado, foi um claro agradecimento da massa associativa pelo regresso de um dos seus, num casamento que promete, mas que ainda está a dar os primeiros passos.










Curiosamente, a noite no Estádio da Luz já tinha ficado na retina por dois momentos vividos… sem bola. Primeiro, o já aqui referido habitual voo da águia Vitória teve um desfecho inusitado, com a ave a aterrar num camarote, um pequeno percalço na cerimónia. Depois, e ainda antes do arranque do jogo, o pequeno Salvador, um menino de seis anos que sofre de Epidermólise Bolhosa Distrófica Recessiva, pôde cumprir um sonho ao entrar relvado do Estádio da Luz acompanhado de Rafa Silva. Porque há valores bem mais elevados do que o futebol, há que dar conta que foi para Salvador o primeiro grande aplauso da noite.
Estoril assustou
tarde demais
De regresso ao relato dos incidentes da partida com a bola a rolar sobre o bem cuidado relvado da Luz, e já depois de um primeiro tempo em que o Benfica conseguiu adiantar-se no marcador com o golo de Pavlidis, o segundo tempo manteve um conjunto encarnados dominador, a falhar nos últimos vinte metros e a adiar o xeque-mate ao Estoril Praia.
Aos 52 minutos, porém, não surgiu prioriamente o xeque-mate, até porque o jogo ainda viria a permitir outros desenvolvimentos, mas houve tempo para um golaço para o Benfica que ajudou a resolver a contenda. De longe, quando tinha espaço para progredir, o central Lenglet disparou um míssil a 35 metros da balizaque não deu hipóteses a Robles, concretizando um golo de antologia para um central que parecia encaminhar a vitória benfiquista para um mar de tranquilidade.









Ficha de Jogo: Benfica 2-1 Estoril Praia
Onzes Iniciais
| Benfica | Estoril Praia |
|---|---|
| Samuel Soares (GR) | Joel Robles (GR) |
| Bah | Ferro |
| Tomás Araújo (C) | Stelios Andreou (Peixinho, 71’) |
| Clement Lenglet | Sierra |
| Samuel Dahl | Ricard (Pedro Carvalho, 71’) |
| Enzo Barrenechea (João Palhinha, 30’) | Xeka (Holsgrove, 46’) |
| Leandro Barreiro | Tsoungui |
| Rafa Silva (Andreas Schjelderup, 63’) | Fernando Medrano (Rafik Guitane, 82’) |
| Sudakov (Gonçalo Morais, 80’) | João Carvalho (C) |
| Gianluca Prestianni (Lukebakio, 80’) | André Lacximicant (Fabrício Garcia, 71’) |
| Vangelis Pavlidis (Jhon Durán, 80’) | Yanis Begraoui |
| Treinador: Marco Silva | Treinador: Vasco Seabra |
Árbitro: Hélder Carvalho
VAR: Tiago Martins
Ação disciplinar: cartão amarelo para Ismael Sierra (74’)
Golos…
| Golo | Minuto | Jogador | Assistência |
|---|---|---|---|
| 1-0 | 40’ | Pavlidis | – |
| 2-0 | 50’ | Clement Lenglet | – |
| 2-1 | 82’ | Begraoui | – |
Os adeptos do Benfica queriam o terceiro golo, Palhinha chegou a ter oportunidade para colocar a cereja no topo do bolo mas Robles impediu o golo ao médio do Benfica com uma enorme defesa, antes já Sudakov tinha enviado uma bola à trave da baliza canarinha e num lance rápido dentro da área da formação visitante, Leandro Barreiro foi agarrado e impedido de chegar à bola, numa jogada que merecia, no mínimo, a revisão do VAR Tiago Martins.







Mas o futebol tem destas coisas, as surpresas acontecem e, aos 80 minutos, eis que um passe longo a partir da linha média do Estoril Praia encontrou Begraoui na zona da meia-lua da área do Benfica, o marroquino rodou sobre a defesa e atirou de forma implacável, fixando o resultado em 2-1. O Benfica tremeu, os adeptos nas bancadas gelaram, o Estoril acreditou, e a ansiedade instalou-se na Luz. No entanto, a equipa de Marco Silva conseguiu gerir o susto, os adeptos rapidamente recuperaram e fizeram-se ouvir, empurrando a equipa para a baliza de Robles, e o Benfica, com o apoio do décimo segundo jogador, segurou os três pontos até ao apito final do árbitro Hélder Carvalho.
Terminou assim este jogo com 2-1, um resultado que espelha o domínio encarnado, mas que também deixa a sensação de que a lição de sofrimento até ao fim parece ser uma constante nesta temporada. O Benfica soma agora sete pontos, à quarta jornada, ainda que com um jogo em atraso, enquanto o Estoril Praia continua à procura do primeiro sorriso num campeonato que ainda agora está a começar.









