As Festas do Barrete Verde e das Salinas só podem ser verdadeiramente compreendidas quando olhamos para a própria história de Alcochete. Estas Festas nasceram de uma terra moldada pelo Tejo, pelo sal, pelo trabalho rural e pelas suas gentes. E é precisamente essa ligação entre passado, presente e futuro que lhes dá uma importância que vai muito além dos dias em que a Vila se veste de festa.
Durante séculos, Alcochete não se sentiu periférica, porque o Tejo era a sua grande estrada. A salicultura, a pesca, a agricultura e o transporte fluvial davam vida à Vila e ligavam-na diretamente a Lisboa. O sal, esse verdadeiro “ouro branco”, saía das salinas e seguia pelo Tejo para a capital e para outros mercados. O salineiro, que hoje vemos representado nas Festas, era então uma figura real do quotidiano e do sustento de muitas famílias.
Alcochete não era apenas uma terra de passagem. Era uma comunidade com atividade económica própria, profundamente ligada ao rio, às marinhas, à agricultura e à circulação de pessoas e mercadorias. A sua história é muito anterior às Festas: D. Manuel I nasceu em Alcochete, em 1469, e a Vila recebeu foral em 1515. É esta memória histórica que as Festas ajudam, de geração em geração, a manter viva.
Depois vieram tempos diferentes. A transformação das redes de transporte e o declínio de algumas das atividades tradicionais fizeram com que Alcochete parecesse mais distante dos grandes centros de decisão e desenvolvimento. Lisboa estava ali perto, mas a viagem podia significar quase duas horas. E talvez por isso as Festas assumissem uma dimensão ainda maior: durante alguns dias, Alcochete deixava de ser uma terra distante e tornava-se destino, ponto de encontro e lugar de celebração.
É também por isso que recordar as antigas Festas é recordar uma Alcochete que mudou profundamente sem perder a sua essência. O Campino, o Forcado e o Salineiro não são apenas personagens de um programa festivo: representam atividades, profissões, valores e modos de vida que ajudaram a construir a identidade da Vila.
Em 1998, a abertura da Ponte Vasco da Gama mudou profundamente essa realidade. Alcochete passou a estar diretamente ligada aos grandes eixos metropolitanos e ganhou uma nova centralidade. Aquilo que durante décadas tinha parecido longe passou a estar muito mais perto. E essa transformação também mudou a forma como as Festas são vividas e percecionadas: a Festa de Alcochete deixou de ser apenas uma celebração da comunidade local e passou a ter uma capacidade de atração cada vez maior.
Hoje, porém, estamos perante uma nova possibilidade de transformação, talvez uma das maiores da história recente do concelho.
A concretização do Novo Aeroporto de Lisboa – Aeroporto Luís de Camões – no Campo de Tiro de Alcochete, acompanhada pelas novas acessibilidades, pelo reforço ferroviário e pelos projetos de ligação metropolitana, poderá colocar Alcochete perante uma oportunidade económica que, há poucas décadas, seria difícil imaginar. A dimensão dessa transformação poderá trazer investimento, emprego, turismo, novas atividades empresariais e uma procura crescente pelo território.
É precisamente aqui que as Festas do Barrete Verde e das Salinas ganham uma nova importância. Num território que poderá conhecer uma profunda transformação económica e demográfica, as Festas serão também uma forma de dizer ao futuro quem somos e de onde viemos.
O desafio não deverá ser simplesmente crescer. Será crescer com identidade. A nova centralidade económica terá de traduzir-se em qualidade de vida, emprego qualificado, comércio local forte, turismo, cultura, valorização do património e melhores oportunidades para quem aqui vive. E as Festas podem assumir um papel importante nessa estratégia, valorizando a cultura local e atraindo visitantes que procurem não apenas um território novo, mas uma terra com História.
Porque Alcochete tem algo que muitas novas centralidades não conseguem criar: tem História, memória e identidade.
Tem o Tejo, as salinas, o património, a gastronomia, o mundo rural, os cavalos, os campinos, os forcados, os salineiros e uma cultura popular que encontra nas Festas do Barrete Verde e das Salinas uma das suas maiores expressões. É precisamente essa combinação que poderá transformar a Festa num dos grandes elementos de afirmação cultural e turística de Alcochete num futuro em que a Vila estará, provavelmente, muito mais exposta ao mundo.
É essa identidade que poderá fazer a diferença no futuro. Quanto maior for a transformação à volta de Alcochete, maior será a responsabilidade de preservar aquilo que não pode ser construído de novo: a memória coletiva, as tradições e o sentimento de pertença.
Há episódios da história das Festas que ajudam a perceber bem essa capacidade de Alcochete se afirmar para além das suas fronteiras. Há várias décadas, numa apresentação das Festas na capital, cavaleiros, cavalos e forcados desfilaram pela Avenida da Liberdade, levando ao coração de Lisboa a imagem, a força e a tradição de Alcochete. Foi um momento de enorme simbolismo: uma Vila que então estava muito mais distante da capital conseguia fazer chegar à principal avenida de Lisboa aquilo que tinha de mais genuíno — os seus cavalos, os seus homens e a sua tradição.
E há outro episódio que permanece na memória de muitos alcochetanos: um helicóptero Puma sobrevoou a Vila e lançou flores sobre Alcochete, numa iniciativa que, para a época, terá sido verdadeiramente extraordinária. Mais do que uma simples curiosidade, esse momento traduzia a dimensão e a projeção que as Festas já tinham conquistado e a capacidade de surpreender e mobilizar uma comunidade inteira.
São episódios que hoje podem parecer quase cinematográficos, mas que fazem parte da memória viva das Festas. E talvez seja precisamente por isso que mereçam ser recordados: porque mostram que Alcochete sempre soube levar a sua identidade mais longe. Naquela altura, eram as Festas que levavam Alcochete até Lisboa; amanhã, poderá ser o mundo a chegar até Alcochete.
Mas uma coisa é certa: Alcochete já demonstrou várias vezes que sabe atravessar mudanças.
Foi uma terra que viveu do sal e do rio.
Foi uma terra que perdeu centralidade quando as rotas de transporte mudaram.
Foi uma terra que renasceu com a Ponte Vasco da Gama.
E poderá agora estar à porta de uma nova etapa da sua História.
Por isso, quando terminam as Festas do Barrete Verde e das Salinas de 2026, não termina apenas mais uma edição de uma tradição com décadas. Fecha-se mais um momento de uma história que começou muito antes de nós e que continuará depois de nós.
Termina uma edição. E começa a preparação de outra. Mas, olhando mais longe, começa também uma nova etapa para Alcochete.
Que saibamos preservar aquilo que faz de Alcochete uma terra única e, ao mesmo tempo, ter a ambição e a inteligência para aproveitar as oportunidades que o futuro nos coloca diante dos olhos. Que o crescimento económico não apague a memória e que o progresso não transforme a identidade numa peça de museu. Pelo contrário: que seja a identidade de Alcochete a dar sentido ao progresso.
Alcochete não deve ter medo do futuro. Deve preparar-se para ele, sem deixar de ser Alcochete.
E, enquanto se prepara, continuará a fazer aquilo que sabe fazer há gerações: celebrar a sua terra, o seu rio, as suas tradições e as suas gentes. E continuará a encontrar nas Festas do Barrete Verde e das Salinas um dos momentos maiores dessa afirmação coletiva.
Acabaram as Festas do Barrete Verde e das Salinas de 2026.
Venham as Festas de 2027.
Porque em Alcochete, quando uma Festa acaba, já outra começa a ser sonhada.
E talvez, quando chegar 2027, estejamos também um ano mais perto de uma nova página da História desta Vila. Uma História que as Festas ajudam a contar, todos os anos, através do campino, do forcado, do salineiro, dos cavalos, dos toiros, da fé, da música, da sardinha assada e, sobretudo, através das suas gentes.
Porque as Festas do Barrete Verde e das Salinas não são apenas uma tradição de Alcochete. São uma parte daquilo que Alcochete é — e daquilo que poderá continuar a ser no futuro.

Zeferino Boal define-se, ele próprio, como um cidadão, angolano e português, livre pensador e de ação cívica. Com carreira militar na FAP e formação na área da gestão, desempenhou funções públicas, políticas, desportivas e privadas de que se orgulha de terem sido marcadas sempre pela dedicação e responsabilidade.









