Para assinalar os 500 anos do nascimento de Luís de Camões, o Teatro Nacional de São Carlos e o comissariado das comemorações juntaram-se para produzir uma ópera nova em português. Chama-se “Relicário Perpétuo”, tem música de Luís Tinoco e libreto de Luísa Costa Gomes, e estreia já esta quarta-feira, 10 de junho, no Teatro Camões, em Lisboa — precisamente no dia em que se celebra Portugal, Camões e as Comunidades Portuguesas. Há uma segunda récita a 11 de junho, também em Lisboa, e no dia 13 segue para o Cine-Teatro Louletano, em Loulé, numa versão de concerto.
A história é uma tragicomédia. Num reino oriental caótico, um príncipe coleciona tudo o que lhe aparece à frente sem saber o que tem valor. É nesse ambiente de acumulação insana que o espectro de Camões aparece, perdido e oprimido, a tentar garantir o seu lugar no cânone literário. Entre um Vizir que o aconselha e um rei ausente que funciona como bússola moral, o poeta discute que versão de si deve ficar para a posteridade: o dos sonetos, o das odes, o da epopeia, o do teatro mal-amado, o das cartas ou o das sátiras ainda por estudar. A pergunta de fundo é simples e incómoda: o que guardar, o que deitar fora e quem decide isso?
O libreto tem seis cantores e um faquir mudo, com três vozes masculinas e três femininas. Além de Camões, aparecem um príncipe da Índia, um vizir hipócrita, o rei Salomão, uma escrava que faz de tudo, uma santa com ouvido absoluto (que ouve até sons do futuro) e uma figura chamada Boba Joana, que tece comentários entre o popular e o filosófico. Há ainda um pormenor curioso: o texto inclui passagens em papiamentu, em negrillo aproximado, línguas inventadas que partem do provençal e do catalão, e até o português seiscentista surge como mais uma “língua estrangeira”.
Antes das récitas de 10 e 11 de junho há uma conversa com os criadores, moderada pelo diretor artístico do São Carlos, Pedro Amaral. A encenação e os figurinos são de Nuno Carinhas, a direção musical é de Joana Carneiro, e a Orquestra Sinfónica Portuguesa toca ao vivo. A classificação etária é M12.
Se gosta de ópera, ou se tem curiosidade em ver como é que um poeta do século XVI acaba a discutir o seu próprio valor num palco com línguas inventadas e um rei indeciso, esta pode ser uma boa oportunidade.









