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De Bragança à Amadora um só golo fez a diferença… para o Sporting

Há músicas que nos ficam na cabeça. Lembra-se, caro leitor, daquele êxito dos Xutos & Pontapés (“Para ti Maria”) que fala da distância entre Bragança e Lisboa? Pois bem, neste sábado de vento gelado na Reboleira, a geografia inverteu-se. A questão não era a distância de Bragança à capital, mas sim o que um Daniel com apelido de Casa Real conseguiu fazer da Amadora para o resto do país. Foi, digamo-lo sem medo, um golo de distância, apenas um, mas que pesou como uma tonelada nas contas de duas realidades opostas na tabela da I Liga.

No Estádio José Gomes que parecia um bloco de gelo, com 10 graus de temperatura mas uma sensação térmica de um ou dois graus negativos, o Sporting venceu o Estrela da Amadora por 0-1 com um golo solitário apontado por Daniel Bragança já na segunda metade, assinando um triunfo que, para os leões, sabe a pressão máxima sobre o FC Porto, enquanto que para os tricolores cheira a angústia crescente, numa altura em que aumenta de tom a luta pela permanência na I Liga.

Onzes e estratégia: a muralha
tricolor vs. a posse leonina

Se há jogo que se ganha nos detalhes e se perde na falta de inspiração, este foi esse jogo. Rui Borges, o técnico do Sporting, ciente do desgaste emocional da derrota com o Arsenal (e da dura semana que se avizinha), optou por gerir o capital físico.

A aposta recaiu numa dupla de centrais renovada — Zeno Debast e Eduardo Quaresma renderam Gonçalo Inácio, preservado para Londres —, enquanto no miolo a dupla Morten Hjulmand e Daniel Bragança prometia consistência, aparecendo lá na frente o indispensável Luis Suárez em busca do caminho da baliza.

Do outro lado, a equipa de João Nuno não inventou. Assumiu a pele de “pequeno digno”, encostou-se num sólido 5x4x1, com a linha defensiva colada à área de Renan Ribeiro, e ficou à espera do erro ou da brisa favorável para soltar Ianis Stoica em velocidade. A estratégia funcionou nos primeiros 45 minutos, anulando o ímpeto verde e branco e reduzindo os disparos enquadrados a uma raridade, mas revelou a sua brecha no golo consentido a Daniel Bragança.

“Aqui há gato”:
o insólito e a falta de fogo

A primeira parte foi um prato de águas quentes, temperado pelo vento forte que assolava a Reboleira e que chegava a travar a progressão da bola quando esta era rematada em altura a partir da baliza do topo sul para o lado contrário.

O Sporting tinha a bola (cerca de 78% de posse), mas faltava-lhe o “veneno” e as jogadas morriam na densa mancha tricolor, com Francisco Trincão a tentar desequilibrar sem sucesso e Geny Catamo preso às malhas defensivas.

Se o espetáculo era pobre, o insólito tratou de o aquecer. Quando o cronómetro se arrastava para o intervalo, um gato decidiu invadir o relvado. Durante breves segundos, o felino foi a figura mais rápida em campo, obrigando o árbitro David Silva a interromper a partida. Foi, paradoxalmente, o momento de maior adrenalina de uma etapa inicial onde até o perigo maior foi um quase autogolo de Leković.

A Casa de Bragança decide

Rui Borges não gostou do que viu. Ao intervalo, Iván Fresneda (com queixas físicas) deu lugar a Georgios Vagiannidis na equipa leonina e a mensagem era clara: mais largura, mais profundidade. Mas o panorama manteve-se cinzento. O Estrela defendia com a alma e a bola não entrava.

Até que, aos 59 minutos, numa altura em que Rodrigo Pinho estava fora do relvado a receber assistência e o Estrela jogava momentaneamente com dez, Francisco Trincão deixou de inventar e fez o simples. Serviu Daniel Bragança à entrada da área. O médio, que tem demonstrado uma veia goleadora invulgar pós-lesão, não hesitou. Com o pé esquerdo, rematou colocado, rasteiro, no canto de Renan Ribeiro .

De Bragança à Amadora foi, afinal, um remate de pé esquerdo. Um golo que não é só um golo; é a materialização da “raça” que faltava. Como disse Rui Borges, o médio tem uma leitura de jogo acima da média e está numa forma espetacular.

Após o golo, o jogo partiu-se. O Estrela, agora sim, atreveu-se mais. Aos 70 minutos, Max Scholze obrigou Rui Silva a uma grande defesa. O Sporting, por seu lado, esteve perto do segundo: Geny Catamo desferiu um míssil de fora da área que explodiu na barra aos 79 minutos. Foi o prenúncio do sofrimento final, mas a equipa de Alvalade segurou o resultado com unhas e dentes, numa demonstração de “maturidade”, nas palavras do técnico.

A dança das substituições
e o regresso de Quenda

Rui Borges voltou a mexer bem na equipa. Lançou Geovany Quenda aos 67 minutos, num regresso muito aplaudido após quatro meses de paragem. O miúdo de 18 anos quase coroou o regresso com golo, mas não conseguiu dominar isolado. Juntamente com a entrada de Morita para dar solidez, e mais tarde Diomande para fechar a defesa, Borges mostrou que, mesmo sem inspiração, o plantel tem união para gerir a vantagem.

Pelo lado do Estrela, a entrada de Jovane Cabral (antigo jogador do Sporting) trouxe alguma imprevisibilidade, mas não o suficiente para furar o muro leonino. A equipa da casa fica com a sensação de que “merecia algo mais”, como confessou o treinador-adjunto, mas a verdade é que pecou sempre na hora do passe decisivo.

O impacto na corrida
com dois lados da moeda

No final, a tabela não mente. Com este triunfo, o Sporting chega aos 71 pontos, colando-se a apenas dois do líder FC Porto, com igual número de jogos realizados (aguardando-se a partida dos dragões no Estoril este domingo). Os leões mantêm-se vivos na corrida ao bicampeonato, empurrando a pressão para o lado dos azuis e brancos.

Já para o Estrela da Amadora, o céu está cinzento. Com 28 pontos, continuam no 14.º lugar, mas com um calendário final assustador. Enquanto os rivais diretos têm encontros teoricamente mais acessíveis, os tricolores terão de suar sangue. Ainda assim, João Nuno prefere olhar para os oito pontos conquistados na primeira volta contra os grandes para manifestar a sua confiança.

O Sporting conseguiu uma vitória de sacrifício, sem dúvida que suada, feia por vezes, mas eficaz, um triunfo de um bicampeão que não desiste de poder celebrar de novo a conquista do campeonato por muito difícil que esse feito se afigure. Para já cumpriu, e tudo graças a um golo vindo de… Bragança.


Ficha de Jogo

Estrela da Amadora 0-1 Sporting CP

  • Data: 11 de abril de 2026
  • Local: Estádio José Gomes, Reboleira, Amadora
  • Árbitro: David Rafael Oliveira Silva

Golo: Daniel Bragança (59′)

Estrela da Amadora (João Nuno): Renan Ribeiro; Max Scholz, Bernardo Schappo, Stefan Lekovic; Bruno Langa (Otávio, 76′), Kevin Jansson, Eddy Doué (Encada, 76′), Robinho (Jorge Meireles, 65′), Abraham Marcus; Ianis Stoica (Jovane Cabral, 62′), Rodrigo Pinho (Van Hooijdonk, 77′).

Onze do Sporting CP (Rui Borges): Rui Silva; Iván Fresneda (46′ Vagiannidis), Eduardo Quaresma, Zeno Debast, Maxi Araújo; Morten Hjulmand, Daniel Bragança (67′ Morita); Geny Catamo (90+4′ Rafael Nel), Pedro Gonçalves (67′ Quenda), Francisco Trincão (90+2′ Diomande); Luis Suárez.

Disciplina: Cartão amarelo para Höög Jansson (45’+02′) Rui Silva (87′), Encada (88′) e Van Hppijdonk (90′).

texto: Jorge Reis
fotos: Diogo Faria Reis e Luís Moreira Duarte

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