Morreu esta sexta-feira, aos 86 anos, o ator e lutador de artes marciais Chuck Norris, um dos últimos grandes ícones da cultura pop do século XX. A notícia, confirmada pela família, coloca um ponto final numa carreira que transcendeu o ecrã para se transformar num fenómeno global, alimentado por uma personificação tão rígida quanto o seu célebre “golpe do canto” — aquele pontapé circular que, reza a lenda, teria o poder de desviar a rotação da Terra. Mas antes de se tornar o herói de memes e a piada recorrente de uma geração que o imortalizou como um deus indestrutível, Norris foi, acima de tudo, um construtor meticuloso de uma determinada ideia de masculinidade silenciosa, disciplinada e implacável.
Nascido em Ryan, no Oklahoma, em 1940, Carlos Ray Norris conheceu a dureza muito antes de a câmara o imortalizar. Foi a adolescência tímida e a pouca aptidão para o desporto que o empurraram para as artes marciais, primeiro o judo e o karaté, depois o tang soo do, onde viria a cimentar um domínio técnico que poucos contestariam. Nos anos 60 e 70, o seu nome circulava nos circuitos de competição com a mesma força dos seus golpes: foi o primeiro ocidental a alcançar o grau de oitavo dan no taekwondo, fundou o sistema Chun Kuk Do e acumulou títulos de campeão mundial de karaté com uma discrição que contrastava com a teatralidade que mais tarde exibiria no cinema. Foi nessa altura que se cruzou com Bruce Lee, num encontro que alimentou décadas de especulação — não tanto sobre o desfecho de um hipotético combate, mas sobre a passagem de testemunho entre duas conceções opostas da luta: uma mais visceral e veloz, a outra assente numa força estoica e aparentemente inabalável.
A transição para o cinema não foi imediata, mas tornou-se inevitável. O corpo atlético, o olhar fixo e o bigode que se tornaria a sua assinatura estética fizeram dele o antagonista perfeito em “O Vingador” (1972), ao lado de Bruce Lee, antes de o elevarem a protagonista de uma série de filmes de baixo orçamento que definiram o género de ação dos anos 80. Foi em “Força Delta” (1986) que consolidou o arquétipo do militar patriota, mas é em “Invasor de Corpos” (1988) e na trilogia “Desaparecido em Combate” que a sua figura atinge o ponto de pura caricatura: o herói solitário que, mesmo quando espancado, apenas hesita o tempo suficiente para limpar o canto da boca com o polegar antes de desferir a última palavra — quase sempre um provérbio seco e inapelável.
No entanto, o legado de Chuck Norris não se esgota nos filmes B que o consagraram, nem sequer na série “Walker, o Ranger do Texas”, que durante oito anos o trouxe para as salas de estar de famílias inteiras com uma fórmula de moralismo televisivo tão previsível quanto confortável. O verdadeiro monumento à sua figura foi erguido, ironicamente, muito depois do seu auge físico, quando a internet dos primeiros anos do século XXI descobriu nele o veículo perfeito para o humor absurdo. As “Chuck Norris Facts” — factos que, em Portugal, se popularizaram sob a forma de anedotas de café e de conversas de balneário — transformaram o ator num conceito: “Chuck Norris não faz flexões; empurra a Terra para baixo.”, “Quando o Chuck Norris foi ao passeio do Pópulo, a água é que lhe pediu para fazer uma selfie.” O que começou como uma brincadeira viral acabou por cimentar a sua imortalidade cultural, e Norris, ao contrário do que seria expectável num herói de ação mais rígido, abraçou o fenómeno com um sentido de humor surpreendente, chegando mesmo a escrever um livro com a coletânea desses factos e a utilizá-los em campanhas publicitárias.

Esta adesão à sua própria lenda revela uma faceta essencial do homem: a consciência de que a força, para perdurar, tem de saber rir-se de si própria. Por detrás do olhar de quem vendeu uma imagem de invencibilidade quase castradora, Chuck Norris foi também um homem de causas — nomeadamente as ligadas ao combate às drogas e ao apoio a jovens desfavorecidos, através de programas que fundou e financiou com discrição. A fé cristã, que assumiu publicamente após uma experiência de quase-morte nos anos 90, deu-lhe um lastro de serenidade que contrastava com a violência coreografada dos seus filmes.
Morre, pois, o ator. Morre o artista marcial que ajudou a popularizar o karaté no Ocidente antes da explosão do MMA e das artes marciais mistas. Morre o símbolo de uma América de Reagan, das fitas VHS e dos heróis sem contradições. Mas o mito, esse, talvez esteja mais vivo do que nunca. Porque, como reza a última das grandes verdades que a internet escreveu sobre ele: “Chuck Norris não morreu. Apenas está à espera que o Dicionário atualize o verbo ‘sobreviver’.”
Para todos os efeitos, o homem que nunca perdia um combate, nem sequer os que nunca travou, sai hoje de cena com a certeza de que o seu nome já não lhe pertence — é, agora, património imaterial de uma cultura que encontrou num homem de bigode e lutador de artes marciais, com a sua imagem na grande tela do cinema, apenas mais uma forma de imortalidade entre tantas as que viveram as suas personagens.









