No estádio de Leiria, o frio desta noite de 7 de janeiro entrou nas veias de cada benfiquista. A estação ainda é de Inverno, mas para o Benfica de José Mourinho, esta quarta-feira começou a parecer muito com o fim de uma época. Perante um Sporting de Braga superior, intenso e inteligente, as águias caíram por 3-1 na meia-final da Taça da Liga, num jogo que foi muito mais do que uma simples eliminação: foi um espelho da crise que corrói a Luz.
Desde o primeiro apito do árbitro João Pinheiro que o plano de jogo das duas equipas ficou claro. Enquanto o Braga de Carlos Vicens procurava o controlo através de uma posse de bola com ideias, o Benfica tentou afogar o meio-campo com músculo. A estratégia, porém, colapsou ao encontrar um nome: Rodrigo Zalazar. O uruguaio, que já tinha ameaçado com um penálti (depois anulado pelo VAR) aos 9 minutos, tornou-se no pesadelo da defesa encarnada.
Curiosamente, no lance com Zalazar no arranque do jogo, ao oitavo minuto, Otamendi deveria ter visto o cartão vermelho, algo que não aconteceu por erro do árbitro e, mais do que isso, por erro do VAR. Mais tarde, Otamendi viria a ser expulso numa situação pouco clara, aparentemente nada justificável, e que deixa o capitão argentino do Benfica de fora do próximo compromisso dos encarnados, logo frente ao FC Porto. Resta esperar pelo relatório do árbitro João Pinheiro para se perceber se houve mesmo um motivo válido para que Otamendi fosse expulso, sendo certo que o erro ao minuto 8 não poderia ser “compensado” com outro erro já na fase final do jogo quando o Benfica já perdia por 3-1.







Voltemos, ainda assim, à linha do tempo para vermos como aconteceu este descalabro da equipa orientada por José Mourinho. Aos 19 minutos, na primeira jogada de golo, Zalazar humilhou a experiência de Otamendi na ala direita e colocou um cruzamento açucarado para os pés de Pau Víctor. O catalão, sem qualquer marcação (onde é que andava Tomás Araújo?), não perdoou, abrindo o marcador com um remate cruzado sem hipótese para Trubin.
O Benfica, apático, assistiu ao crescimento do Sporting de Braga. E aos 33 minutos, Zalazar ditou a sentença. Recolhendo a bola no seu meio-campo, o médio empreendeu uma arrancada solitária, deslizando por entre Sudakov e Otamendi (já com amarelo) como se estivesse num treino de velocidade, até finalizar para fazer o 2-0. Foi o retrato de uma equipa sem alma, a ser desmontada por um único homem. A primeira parte terminou com o Braga a esmagar o Benfica em todos os capítulos, quase fazendo o terceiro, numa clara demonstração de domínio táctico e atitude.
Benfica cresceu no segundo tempo,
mas o mau futebol já era mau demais
À falta de futebol, Mourinho tentou a emoção. A entrada do jovem Prestianni no intervalo trouxe outra urgência. E a esperança, efémera, acendeu-se aos 64 minutos: Pavlidis, derrubado por Paulo Oliveira na área, converteu o penálti que reduziu a desvantagem. Por momentos, pareceu que o jogo poderia mudar. Mas a reacção do Braga foi a de uma equipa madura, que não se assusta.
Fran Navarro esteve perto de matar o jogo, e aos 81 minutos, após um livre de Ricardo Horta, numa altura em que o Benfica não podia sofrer um golo que matasse a eliminatória, a verdade é que as águias voltaram a errar e a dar os trunfos todos ao adversário. A defesa benfiquista vacilou mais uma vez, Trubin ainda defendeu um primeiro remate, mas Gustaf Lagerbielke apareceu na recarga para assinar o 3-1 e selar o passaporte minhoto para a final.
O epílogo foi simbólico e amargo para os encarnados. Nicolas Otamendi, o capitão, foi então expulso aos 89 minutos, alegadamente por protestos, recebendo o segundo amarelo e o consequente vermelho quando o jogo já estava perdido. A imagem do veterano central a deixar o campo, enquanto o adversário celebrava a vitória, é um resumo brutal do estado de espírito do plantel benfiquista: derrotado, frustrado e sem rumo.






Agora, o Benfica enfrenta um precipício. A Taça da Liga, um dos títulos que ainda parecia ao alcance, escapou. A final, inédita, será um dérbi minhoto entre Braga e Vitória de Guimarães, já no próximo sábado, num jogo em que o LusoNotícias estará presente. No campeonato, a situação da equipa ás ordens de José Mourinho é ainda mais desesperante, com os encarnados a 10 pontos do líder FC Porto – uma distância que, historicamente, nunca foi recuperada por nenhuma equipa na primeira volta do campeonato português.
Ao invés, o Sporting de Braga, que ainda recentemente impôs um empate ao Benfica em jogo para o campeonato, mostrou ter aprendido a fazer melhor, e avança para a possível conquista do primeiro título da época, que vai discutir com o seu eterno rival Vitória. Ainda atrás do Gil Vicente, a turma às ordens do espanhol Juan Carlos Vicens nem sequer começou da melhor forma a presente época, mas com uma equipa recheada de qualidade, com nomes como os de Ricardo Horta, João Mourinho e o goleador Zalazar, está a encontrar o melhor caminho para a segunda volta da época.
De volta à realidade do Benfica, este jogo frente aos bracarenses não foi apenas uma derrota. Foi a confirmação de uma equipa que perdeu o seu norte. Enquanto o Braga avança com um projecto claro e uma estrela como Zalazar a brilhar, o Benfica de Mourinho esconde-se atrás da lamúria e da falta de ideias, com o mercado a ser visto como salvador contra o gasto de milhões, projectando-se a saída de outros tantos milhões. O último reduto de esperança para uma temporada que ameaça ficar vazia é a Taça de Portugal. Mas depois da exibição em Leiria, resta a pergunta que ninguém na Luz quer ouvir: com este futebol, como se pode acreditar em mais alguma coisa?









