O gélido abraço do Allianz Stadium, recinto que há alguns anos passou a ocupar o espaço do antigo Stadio Del Alpi e no qual os termómetros beijaram o grau zero, acabou por ser o menor dos problemas do Benfica na noite desta quarta-feira em que somou mais uma derrota na fase de liga da Liga dos Campeões. Sob o olhar de um José Mourinho que admitira ter, no voo para Itália, a sensação de comandar a equipa B, dada a presença de oito jogadores da formação secundária, este Benfica deu corpo a uma das suas piores versões europeias: a que compete, chega até a prometer, mas no momento da verdade tropeça na sua própria sombra. Desta feita perante a Juventus, o Benfica consentiu uma derrota por 2-0, na 7.ª jornada da fase de liga da Champions, um resultado que surge como o espelho de uma campanha que nasceu torta e que, com uma exatidão quase cruel, parece não ter condições para se endireitar.
A equipa que Mourinho apresentou foi a mesma que venceu em Vila do Conde, um onze repetido por “não ter muitas opções” devido a lesões, mas que o técnico apreciava pelo entendimento tático crescente entre jovens como Prestianni e Schjelderup, curiosamente ainda há pouco tempo segundas opções do treinador dos encarnados.
A estratégia inicial funcionou e o primeiro tempo foi um exercício de contenção mútua, com o Benfica a fechar bem os corredores centrais e a mostrar mesmo alguma superioridade na posse de bola. Pelo meio, o Benfica chegou a construir uma oportunidade dourada, quando Pavlidis apareceu bem colocado na pequena área da Vechia Signora, mas o corte milimétrico de Weston McKennie salvou a Juve. Do outro lado, Anatoliy Trubin fez-se grande a negar o golo a Kenan Yildiz, mantendo o equilíbrio no marcador.







A verdade é que, depois de um primeiro tempo marcado pelo equilíbrio, bastaram 10 minutos na etapa complementar para que tudo se desmoronasse, dez minutos fatídicos que ditaram o desfecho desfavorável do jogo para os pupilos de José Mourinho.
Dez minutos fatídicos abateram o Benfica de Mourinho
Aos 55 minutos, uma perda de duelo físico de Tomás Araújo frente a Jonathan David libertou Khéphren Thuram, que avançou impiedoso e rematou forte e rasteiro para as redes da baliza de Trubin. E antes mesmo que o Benfica pudesse respirar, ao minuto 64′, McKennie apareceu a tabelar dentro da área do Benfica com David e, com a defesa encarnada a parecer anestesiada, dilatou a vantagem assinando o segundo golo da Juve. Por aquela altura, o plano cuidadosamente arquitetado por Mourinho reduzia-se a pó, e a equipa que minutos antes controlava períodos do jogo via-se praticamente fora da Champions.
A resposta do Benfica, ainda assim, surgiu a partir do olhar atento do VAR, com uma oportunidade para a turma das águias reacenderem a chama. Aos 79 minutos, Leandro Barreiro foi derrubado na área num lance em que o árbitro nada assinalou. O jogador do Benfica ficou deitado no solo, o árbitro Serdar Gözübüyük foi alertado pelo VAR para uma suposta falta cometida sobre Barreiro, e após rever o lance no monitor foi rápido no apontar marca de penálti. O Benfica tinha uma oportunidade para reentrar no jogo e poder acreditar numa difícil mas possível cambalhota no resultado, isto porque tinha naquele penálti a redenção ao alcance dos pés de Pavlidis, ele que assumiu a tentativa da conversão da grande penalidade.






O estádio ficou em silêncio, o guarda-redes Michele Di Gregório estudou os movimentos de Pavlidis e este partiu para a bola com a confiança de quem tem tido a seu cargo a missão de bater este tipo de lances quando assinalados para o Benfica.
Pavlidis escorregou e deixou a ambição encarnada na relva
Com a bola colocada na marca da grande penalidade, o que se seguiu foi a imagem que condensa a noite e talvez a temporada europeia do Benfica: no momento da impulsão para o remate, Pavlidis escorregou, o seu corpo girou no ar e a bola, atingida de forma completamente desastrosa, disparou pela linha de fundo a muitos metros de distância dos postes em direção às bancadas. Os colegas de equipa de Pavlidis consolaram o avançado grego, José Mourinho aplaudiu o seu jogador, mas ficava ali o último suspiro da turma encarnada, com o jogo a terminar ali. A crueza do falhanço era tal que parecia um golpe de teatro, uma metáfora demasiado óbvia para uma equipa que, em sete jogos, conta já com cinco derrotas e só marcou seis golos.
Os jogadores, no final, reconheceram a ineficácia, com o capitão Otamendi a afirmar que a equipa “não jogou mal” mas que “há vezes em que a bola não entra”. Já o polivalente Aursnes admitiu que “faltaram os golos” enquanto que Leandro Barreiro foi mais realista: “Sem marcar golos é difícil ganhar um jogo”.
O Benfica terá agora que esperar quase que um milagre, e quem sabe se, inspirado pelo rival Sporting, que esta semana venceu o poderoso Paris Saint-Germain, acreditar que será possível vencer o enorme Real Madrid, isto porque apenas o triunfo sogre os merengues poderá ainda permitir ao Benfica seguir para o play-off de acesso aos oitavos de final da Champions.




O milagre ainda é possível, mas alguém acredita em milagres?
De calculadora na mão, consciente de que a matemática é agora dura e humilhante, o Benfica, com apenas seis pontos (fruto de duas vitórias e cinco derrotas!!!), ocupa o 29.º lugar geral da prova, precisando obrigatoriamente de vencer o Real Madrid na última jornada, a 28 de Janeiro, na Luz, ao mesmo tempo que irá esperar uma conjugação de resultados que permita o milagre.
Curiosamente, um dos resultados que poderá ajudar o Benfica será a possível vitória do Sporting sobre o Atlhetic de Bilbao, isto porque o apuramento da turma basca fará baixar posições na tabela classificativa ao Benfica. E ao mesmo tempo, a vitória da turma de José Mourinho sobre o Real Madrid será igualmente importante para o Sporting, isto porque impedirá o conjunto merengue de subir aos primeiros oito lugares que dão direito à passagem direta para os oitavos de final da Champions, e poderá contribuir para que o Sporting suba ao oitavo lugar dessa tabela, ficando livres, se tal acontecer, de dois jogos no caminho competitivo da Champions.


Antes do encontro entre benfiquistas e merengues, porém, haverá uma paragem obrigatória no caminho da equipa de José Mourinho, no relvado do Estádio da Luz, onde, no próximo domingo, dia 25, o Benfica irá receber o Estrela da Amadora, na 19.ª jornada da I Liga. Será um teste de carácter, um desafio para encontrar a confiança e a eficácia que se evaporaram em Turim, num jogo em que o desafio de Mourinho será levantar um balneário abatido e prepará-lo para uma semana decisiva. Terá assim que vencer no campeonato… podendo depois, contra um gigante como o Real Madrid, tentar o quase impossível na Europa.
Para já, em Turim, o Benfica não perdeu apenas um jogo, mas antes, muito provavelmente, o direito a sonhar com os milhões e a glória da fase final da Champions. Resta saber se ainda terá forças para lutar pela sua própria honra.









