O cinema português está de luto. O realizador João Canijo, um dos nomes mais marcantes e originais da cinematografia nacional, faleceu esta quinta-feira, 29 de janeiro de 2026, em sua casa em Vila Viçosa. A morte de João Canijo, de 68 anos de idade, foi confirmada pela sua produtora, Midas Filmes, e terá sido causada por um ataque cardíaco fulminante. O seu corpo foi encontrado pela empregada doméstica.
Natural do Porto, onde nasceu a 10 de dezembro de 1957, João Canijo deixou um legado artístico profundamente enraizado na sociedade portuguesa, com uma carreira que se estendeu por mais de quatro décadas. Após iniciar estudos de História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, cedo abandonou a academia para se dedicar ao cinema. A sua escola foi o trabalho direto com grandes mestres, tendo atuado como assistente de realização para figuras como Manoel de Oliveira, Wim Wenders, Alain Tanner e Werner Schroeter.
A sua estreia na longa-metragem aconteceu em 1988 com Três Menos Eu, mas foi ao longo dos anos 90 e 2000 que Canijo consolidou uma voz única e inconfundível. Com uma atenção especial aos universos femininos e uma abordagem crua e realista, filmes como Ganhar a Vida (2001), Noite Escura (2004) e Sangue do Meu Sangue (2011) exploraram temas sociais complexos — como o machismo, a imigração, a marginalidade e as tensões familiares —, estabelecendo-o como um agudo observador da condição portuguesa.
Venceu um Urso de Prata
em Berlim no ano de 2023
O auge do seu reconhecimento chegou em 2023, quando o seu filme Mal Viver conquistou o Urso de Prata (Prémio do Júri) no Festival de Cinema de Berlim, um dos mais prestigiados palcos do cinema mundial. No seu emocionado discurso de aceitação, Canijo dedicou o prémio às atrizes que “deram a sua vida para este filme” e à sua equipa técnica, “composta quase completamente por mulheres”.
Mal Viver, que integra um díptico com Viver Mal, foi também o candidato português ao Óscar de Melhor Filme Internacional e, em 2024, arrecadou os prémios de Melhor Filme e Melhor Realização nos prémios Sophia da Academia Portuguesa de Cinema.
Até ao fim, o cineasta manteve-se em plena atividade criativa. Encontrava-se agora a finalizar a sua mais recente longa-metragem, Encenação, protagonizada por Miguel Guilherme, que marcava o regresso do ator a um papel principal sob a sua direção. Além deste projeto, deixa concluído outro filme, As Ucranianas.
A notícia do seu falecimento provocou uma onda de consternação no meio cultural português. Pedro Adão e Silva, antigo ministro da Cultura, destacou-o como “um dos grandes cineastas que fazem a diferença” e que afirmava Portugal no mundo através de um “cinema muito português”.
João Canijo deixa um filho, Manuel, fruto do seu casamento com a atriz Margarida Marinho. O seu percurso, desde os primeiros passos ao lado de Manoel de Oliveira até ao triunfo em Berlim, é o retrato de um artista comprometido, cuja obra permanecerá como um documento vital e poderoso sobre o Portugal contemporâneo.









