Num Estádio da Luz com mais de 55 mil espectadores, o Benfica foi uma máquina de criar e desperdiçar oportunidades contra o Bayer Leverkusen. A lei do futebol, contudo, revelou-se implacável e uma única falha defensiva bastou para Patrik Schick, num lance quase caricato, ditar a quarta derrota consecutão das águias na Liga dos Campeões, por 1-0. O jogo, em que até uma grande penalidade foi perdoada aos alemães, transformou-se assim em uma enorme dor de cabeça para os encarnados e as aspirinas, afinal, estavam todas do lado contrário do relvado.
O jogo começou como um pesadelo adiado. Aos 11 minutos, numa transição rápida, Dodi Lukebakio surgiu isolado na direita do ataque do Benfica. O seu subtil toque de chapéu sobre Mark Flekken fez a bola pairar no ar, mas o destino foi de ferro: um ressonante travessão a negar o golo antecipado antecipava o prenúncio de uma noite de frustração para o Benfica.











Sob o comando tático de José Mourinho, a equipa encarnada demonstrava uma abordagem pragmática, cedendo a posse de bola aos alemães mas criando as situações de maior perigo. Aos 32 minutos, Leandro Barreiro, numa das suas incursões nas costas da defesa, cabeceou perigosamente ao lado. Um minuto depois, era a vez de Nicolás Otamendi aparecer no segundo poste e, com um cabeceamento, martelar a barra transversal do Bayer Leverkusen pela segunda vez. Os deus do golo claramente não estavam com os benfiquistas.
Referência, no primeiro tempo, para o minuto 21, altura em que os No Name Boys exibiram uma faixa em homenagem a Hugo Fernandes, o jovem de 25 anos que foi encontrado morto no passado sábado, 1 de Novembro, depois de ter desaparecido da sua residência em Massamá, Sintra, ele que era sócio dos encarnados e integrava a claque No Name Boys.
Uma mão cheia de nada ao intervalo
após 45 minutos de domínio benfiquista
O Leverkusen, disciplinado e sem se assustar, respondeu com uma oportunidade clara para Ernest Poku, que rematou ao lado, mas a sensação era a de que o Benfica, apesar de não marcar, controlava os destinos do jogo. O intervalo, porém, chegou com um paradoxo: uma exibição sólida, coletiva e com oportunidades claríssimas do Benfica, mas um resultado sem golos que teimava em não reflectir esse domínio da equipa da casa.










A segunda parte começou com a repetição do mesmo filme. Vangelis Pavlidis, o avançado grego, teve a oportunidade mais clara da noite. Isolado frente ao guardião Flekken, em vez de rematar, tentou contornar o guarda-redes, que lhe roubou a bola de forma heróica quando os adeptos já se preparavam para festejar o primeiro gol da partida. Pouco depois, o mesmo Pavlidis voltou a falhar, desta vez com um remate colocado ao lado. A falta de um “matador” na equipa benfiquista era já mais do que evidente – era uma chaga em campo aberto.
Ao minuto 56 ficou uma grande penalidade por assinalar depois de uma carga de Tapsoba sobre Leandro Barreiro com o cotovelo no rosto do jogador do Benfica, um lance dentro da área do Bayer Leverkusen que deveria ter sido sancionada com um castigo máximo. A verdade é que o árbitro não assinalou qualquer falta e o VAR também não chamou o árbitro a rever este lance em que fica evidente a carga sobre o médio internacional luxemburguês do Benfica, um lance que teria mudado a história do jogo.







Quase no lance seguinte depois desta falha da equipa de arbitragem, se dúvidas existissem, uma vez mais ficou provado que a lei do futebol é cruel para quem não a cumpre. Aos 57 minutos, entrou Patrik Schick e oito minutos depois, o pesadelo materializou-se: num raro momento de perigo alemão, Schick rematou forte à baliza do Benfica a partir do lado esquerdo do ataque já dentro da área dos encarnados.
Anatoliy Trubin fez uma excelente defesa, mas a deficiente resposta ao lance por parte de Samuel Dahl transformou-se numa assistência involuntária. A bola, desviada de cabeça pelo próprio lateral benfiquista, regressou a Patrik Schick que, sem dificuldade, cabeceou agora de forma eficaz enviando a bola para o fundo das redes da baliza de Trubin. O erro individual foi, afinal, castigado com o rigor máximo.
Erro de Dahl permitiu o golo alemão
e uma enxaqueca sem remédio









José Mourinho reagiu de imediato com uma tripla substituição, tirando Dahl, Sudakov e Barreiro e lançando Schjelderup, Prestianni e Dedic. A equipa do Benfica, porém, parecia já carregar o peso psicológico de quatro derrotas nesta fase de lida da Liga dos Campeões.
O Benfica instalou-se no meio-campo ofensivo, mas as iniciativas esbarravam numa defesa alemã compacta e na segurança de Flekken, que ainda defendeu um remate de Lukebakio nos descontos. O apito final soou, seguido de alguns assobios da bancada, a expressão sonora da desilusão perante mais um falhanço europeu.
Para trás ficava um jogo em que o Benfica conseguiu um domínio sem resultados práticos, claramente com a iniciativa do jogo, criando 21 remates contra apenas 7 do Leverkusen. A estratégia de Mourinho de bloquear o centro e explorar as costas dos laterais, especialmente pelo corredor direito com Lukebakio, funcionou na criação, mas falhou redondamente na finalização. A linha defensiva falhou no único lance em que não poderia fazê-lo, e o Benfica acumulou o quarto desaire na presente Liga dos Campeões.









Dodi Lukebakio, na direita, foi o motor ofensivo do Benfica, mas também o símbolo da sua ineficácia. Vangelis Pavlidis, pelo meio, com duas oportunidades de golo cantadas, mostrou uma hesitação fatal para um ponta-de-lança. Sudakov, no outro flanco, cruzou e construiu, mas também ele inconsequente. Restaram no meio-campo Richard Ríos e Fredrik Aursnes, mas também Leandro Barreiro, três pilares de combatividade, numa equipa que sentiu claramente a falta do último passe ou o remate decisivo.
Já do outro lado, o Bayer Leverkusen, treinado por Kasper Hjulmand, soube sofrer e esperar pela sua oportunidade. A entrada de Schick e Tillman no segundo tempo deu um novo fôlego à equipa que, com uma defesa sólida liderada por Loïc Badé (eleito o homem do jogo) e um guarda-redes seguro (Flekken), foi eficaz onde o Benfica não foi. Agora, com quatro derrotas em quatro jogos, o Benfica é, a par do Ajax, a única equipa ainda sem pontos na milionária Liga dos Campeões, encontrando-se a esperança de progredir na prova no fio da navalha.












No final do jogo, Mourinho garantiu querer acreditar na possibilidade matemática de conseguir ainda o apuramento para a fase seguinte da prova, mas para tal os encarnados terão que conseguir quatro vitórias nos próximos quatro jogos, e se o próximo adversário é o Ajax, o tal conjunto que, tal como benfiquistas, ainda não tem qualquer ponto, o Benfica terá ainda que jogar com o Nápoles e a Juventus, eventualmente acessíveis, e o Real Madrid na derradeira jornada da Champions. É claro que em termos matemáticos tudo é ainda possível, mas, para já, e no que diz respeito ao embate com o Bayer Leverkusen, a equipa do Benfica fez tudo para ganhar, tudo menos marcar.









